Thursday, June 04, 2009

Perspectiva...


Buscar a chave em círculos e cercos
Fechar as margens e estancar o pranto, o pântano, o silêncio
consumado na pálpebra cerrada
Trancar as sílabas na perfeição do dia,
Enfrentar o íngreme nocturno
Esmagar a raiva, anular o verbo descarnado
desmembrado, vazio, áspero.
Chave. Lugar do fim.
Ou o princípio?

Monday, June 01, 2009

Batem-me à porta e eu estou sentada

Fotografia gentilmente cedida por

Batem-me à porta ao fim da tarde, sempre à mesma hora e eu não vou; sentada me contenho, apesar do sonho correr veloz até ao infinito e regressar ao quadrado gasto dos meus olhos, paredes brancas sem adornos e eu como flor plantada de raiz.
Batem-me à porta ao de leve, mesmo que o ferro toque o ferro, que os materiais ganham veludo quando lhes ordenamos o silêncio e ficamos presos na raiz dos pés e nas amarras de outros fios invisíveis que as paredes teceram no quadrado do silêncio.
Batem-me sempre à porta os fios das letras, com mão fechada em punhado de palavras e eu aguardo a noite, suspendo o ímpeto e fico sentada jogando as peças como se a vida fosse ainda a primeira onda no areal da manhã.
Batem-me à porta os caminhos de um mundo abraçado à vontade dos que podem partir e o fecho não descola da ferrugem do estar.

Wednesday, May 13, 2009

Vestidos de pedra



Demoro-me nas linhas das palavras, secas as letras, lento o rastejo.
Demoram-se-me os gestos, mais do que seria de esperar, na dimensão dos verdes e nos espectros que os enleiam. Ignoro os nomes das coisas e o texto enrola-se. Presença inútil a da música.
Petrificam-se as emoções; e a espuma dos sonhos, macilenta, térrea, despida de substância, é pedra igual.
Os ângulos dos dedos ferem a coragem; não há paz nem na sombra, nem nos claustros.
Roça a dor na demora dos gestos; fio de meada enleada, larva em casulo seco, veludo desbotado. Pedra.
Inquieta-se a lucidez, fermenta o rasgão no espelho, perde-se a semântica dos sentidos.




Tuesday, May 12, 2009

À espera...



Sentados em cadeiras de fundos gastos, em salas pouco arejadas onde os encostam às paredes para que aguardem, calados, a chegada do fim, os velhos fecham os olhos e viajam no tempo. É um movimento ao contrário; em meninos projectavam-se nos dias que estavam para vir, agora não há dias para além do dia; já não lhes importa que alguém venha, depois de terem lutado em vão para que alguém os levasse. Agora ouvem, em registo longínquo, as músicas encantadas dos dias antigos ou sentem discretamente os beijos, de tão distantes. Agora recuam à infância e esquecem o que se passou ontem. Agora, destapam apenas as extremidades de uma pele que se gastou no fazer das coisas e que se amaciou nos afagos. E a mão forte, longa de agarrar, não é mais do que a mão velha que aguarda, de olhos fechados, o passar do tempo.


Friday, May 01, 2009

espaços vazios


Há muito que os poemas deixaram as coreografias velhas
e as novas não se colam às palavras
ou as letras são poucas
ou o espaço cada vez mais amplo...



Saturday, April 04, 2009

O espelho de Narciso



Contemplava ainda e sempre a sua imagem
soberbo na ostentação da graça
centrado na dança circular das águas.
O mundo era apenas o espelho
e o reflexo.


Friday, April 03, 2009

Como Narciso

Eco estendia a sua sombra a proteger-lhe o corpo.
No retorno as águas devolviam-lhe a silhueta negra de todas as penas
E mais a pena de não ter vida.




Saturday, March 21, 2009

Venerando a divindade


Espero-te, ainda e sempre, no lugar dos mitos.


Para mim és água fresca em fim de tarde,

folha de hortelã, barro molhado;



Vejo-te por dentro das pálpebras

Coluna grega a dobrar-se em vénia graciosa.


Quando te penso invento a perfeição.



Sunday, March 15, 2009

Dias com luz


Pendem dos ramos cachos de folhas novas; chilreiam pássaros, despontam ervas, florescem trevos; os miúdos deslizam nas rodas dos patins em algazarra; um par de jovens alheia-se do mundo à sombra de uma árvore e os beijos crescem; e o céu é todo azul e cheira a verde.

Monday, March 09, 2009

A construção


Volto sempre à ideia das construções narrativas para tentar clarificar.
Dizia que vou buscar aos bolsos as histórias planas que aí colocara pela insignificância do dia, ou pela sua dimensão de esboços mal começados e que as vou enchendo de palavras como se enchesse de sentidos uma coisa sem forma, assim criando fingimentos sérios.
Digo ainda que podem ser histórias de partidas, histórias de alcançar rumos ou de feridas causadas pelo romper dos sonhos colados à pele. Histórias de desejo. Histórias com vento, escritas à vista do veleiro de que os olhos se apropriam num dia de verão à beira-mar. Histórias de projecção do ser no ser ou noutros seres cujas vidas se decalcaram no plano da minha rua ou noutros ainda que entram na janela do meu recordar sendo que tudo o que se recorda está em confusa arrumação numa arca de criações múltiplas. Por isso são sempre histórias.
Dizia que toda a ficção é a invenção da possibilidade de ser, o cruzamento de mundos alternativos com personagens a dobrar falas. E que assim se desenham nos relatos os gestos, as vozes, as intrigas e as soluções, mas sempre em histórias.
Digo ainda que recordar é sempre uma narrativa. E que para narrar se parte da selecção dos factos; e que a selecção muda todos os dias, a partir do que nos aconteceu ontem ou já hoje.
Que pode sobrar nesta construção narrativa que aqui exponho aos olhos dos outros?
A ficção. Para ser lida.
Nesse momento começa a outra construção porque só os outros olhos dão sentido às palavras quando delas se apropriam.

Friday, March 06, 2009

O reencontro


Depois o abraço, mas antes os dias empolgados da espera, após a coincidência.
E antes, muito antes, um tempo perdido na infância, há muitos, muitos anos.
No intervalo decorreu a vida.
As meninas encontraram-se e olharam-se nas rugas. Viram através delas o passar dos anos e contaram como foi. Ou antes, contaram pedacinhos de dias bons e dias maus que a memória não alberga mais do que uma parte do todo. Às vezes nem um traço. E, à distância, havia coisas difíceis de confirmar, talvez apenas construções ou desejos. Nunca se saberia. As fotos não comprovam mais do que aquele preciso momento e não se consegue ver nelas o sentir daqueles dias. Isso disseram-no elas, as meninas, à distância de muitos, muitos anos.
Sabes, amiga, o passado não vale mais do que o necessário para se perceber de onde viemos. E mesmo isso nem sempre é a verdade!

Para mim, a verdade foi o encanto de te ter de novo.

Thursday, February 26, 2009

Outono


Foi um desafio lançado aqui. Tinha de partir do texto dado e escrever a réplica.


“O Outono chegou, húmido e frio; os jardins cobriram-se de uma cor de ferrugem, e as florestas negras, direitas como ferro, mancharam-se, aqui e além, de castanho; um vento molhado soprava, empurrando para o rio pequenos ramos cortados. Todas as manhãs, chegavam ao alpendre carros cheios de linho, puxados por cavalos macilentos.”
in Máximo Gorki, A Família Artamonov

Vinham num trotear desengonçado, eles e o mundo todo, queixosos de um cansaço sem sol, que homens e bichos sofrem da mesma privação, uns mais na alma e outros mais no corpo, quando a ferrugem cobre os jardins e o vento sopra molhado e fustiga o caminho que traz o rio às manhãs e as cobre de névoa.
E eu, sentada no alpendre, esperava a nesga de sol que me tirasse da letargia e me trouxesse as memórias. A garota pusera-me o xaile sobre as pernas e a bengala ao alcance da mão. Disse-me para não sair dali, que o chão estava escorregadio e o meu equilíbrio já conhecera melhores dias. Um lagarto entre as frinchas, pensava, enquanto esticava as pernas e olhava os troncos das árvores, direitas como ferro em desafio humilhante à minha curvatura.
Todas as manhãs a cor da ferrugem dos jardins me recordava a impossibilidade da renovação. Porque eu sabia, entre as muitas coisas que eles diziam que eu esquecia e perguntava repetidamente, eu sabia que havia um Outono que chegava húmido e frio e se instalava, teimoso, nos meus ossos deformados, empurrando para o rio pequenos ramos cortados à minha lucidez. E o que ficava era um esqueleto desarticulado, que me fazia repetir a pergunta todos os dias: e ele, a que horas chega?





Wednesday, February 18, 2009

Ainda a ficcionar 11. (nunca há fim)



Quando te pedi que escrevesses imaginei que trarias ao conhecimento a história da permanência de um verão. Uma história contra o tempo.
Fizeste mal em não continuar; nem sempre se tem a sorte ao alcance das mãos.
Como vês o inverno humedece as folhas de papel e, ao contrário da natureza que desabrocha em viço mal as chuvas recolhem, nas folhas húmidas as letras perdem-se.
O que te peço agora é que retomes a história onde a deixei; não te preocupes em voltar atrás, que isso não altera em nada o desenrolar dos factos.
Lembras-te? Eu dizia-te que ela regressava a casa mais inteira e foi exactamente aí que a narrativa perdeu a sequência. Ou fomos nós, tu e eu que não quisemos prosseguir o devaneio: eu porque a deixei retomar a rotina sem lhe pedir que voltasse, ao fim do dia, para me falar dos sentimentos; e tu porque te desviaste do essencial.
Por isso volta. Coloca-a agora a caminho de um lugar mais próximo, mais familiar, mesmo que isso te retire a possibilidade de relatar outras cores e outros aromas. A escrita não tem de viver do exótico; a vida passa-se aqui e agora; para quê teimar em voar para lugares tão distantes.
A vida, capta a vida!
Encontrei-a há dias e achei-a diferente, mas deve ser o efeito das roupas de inverno, sempre mais austeras, sempre mais escuras. Surpreendeu-me a dizer que se desejar muito o verão o tempo passa mais depressa e já não tem tempo para isso. Respondi-lhe que deve dar atenção à permanência. Concordou mas estava impaciente, tenho a certeza.
Ou não fôssemos nós, mulheres, a contradição.
Vamos trazê-la de novo?

Saturday, January 31, 2009

histórias


Chega sempre a casa desgastado e sem ânimo. Vale-lhe a imitação de um salário, no final do mês, embora não saiba por quanto tempo mais.
Ela diz-lhe que se aguente, que “andar ao papel” não desqualifica ninguém. A expressão é dele, que antes se tinha por trabalhador qualificado, quando a empresa tinha centenas de pessoas, bem pagas e com perspectivas seguras. Nunca se pensa que o mal nos pode atingir. Na verdade é bem melhor não pensar em nada para não se sofrer por antecipação.
Agora também a reciclagem pode vir a sofrer de falta de “matéria-prima”, a julgar pelo decréscimo das vendas, queixa-se. Até quando os míseros euros estipulados pelo salário mínimo?
Os filhos, em idade escolar, habituaram-se ao conforto e ao gasto fácil. Tudo é possível neste modelo consumista que as últimas décadas incentivaram. Além disso se os outros têm, por que é que nós não podemos ter em igual qualidade e quantidade? Não foi a igualdade proclamada há muitos anos e legitimada pelos modelos democráticos ocidentais?
Hoje chegou a casa ainda mais desolado. O desconsolo dos outros não é razão que anime, mas à porta de um estabelecimento onde acabara de fazer a recolha das embalagens, dois homens abordaram-no e perguntaram se sabia, se a empresa admitiria mais gente. Que tinham filhos pequenos e as mulheres desempregadas.

Depois chegou ela e disse que a fábrica tinha fechado.

Thursday, January 22, 2009

Simpatia

Um blog de ouro é demasiada responsabilidade para quem não dá sentido às palavras há tantos dias.
Obrigada Cláudia. Eu volto em breve.

Sunday, December 21, 2008

em Dezembro...


Devastam-me os silêncios que atravessam as tardes de Dezembro
e a pressa com que o sol se põe quando aparece;

Afunda-me a luz crua da razão que traz o tempo e o projecta sobre árvores
de ramos completamente despidos e sem pássaros.

Antes me surpreendessem as noites mas nem isso;
nem tão pouco o reflexo no vidro da janela que não dá para lugar nenhum;

Contudo as manhãs prometem dias longos
ou é talvez o nada a convertê-los em intermináveis labirintos.






Sunday, November 30, 2008

entrando em Dezembro...

Tamara de Lempika

Não me dêem flores nem tecidos vermelhos.
As flores envelhecem em jarras depois do momento em que aqueceram as mãos.
As cores vivas alegram as noites e depois gelam, caídas pelo chão.

Antes não as ter …

Prefiro a realidade bruta das palavras, a cólera dos acentos agudizando a voz, o engaste da sílaba na frase espontânea, o gemido abraçado ao frio da madrugada, a banalidade que tilinta suave nos ouvidos, o murmúrio soprado sobre a luz de uma vela, o lugar-comum enraizado no espinho da inquietação ou o dizer acenado no instante da partida.
Não há flores que preencham os espaços gelados do silêncio.


Thursday, November 20, 2008

As cariátides (outra vez)


Sem cabeça seria apenas corpo;
corpo flexível, arrumado, curvo
corpo em movimento, girassol abrindo.

Sem cabeça não me deitaria fora
todos dias ao final da tarde
para no dia seguinte acordar fingindo.

Monday, November 17, 2008

Memórias vivas

Salvador Dali, Persistência da Memória

Só sei que a memória nunca se embaciou, nem nos dias mais turvos nem nas noites mais brancas; hora a hora afaguei as lembranças, mesmo as dos lugares mais pálidos ou as dos tempos mais azafamados. E foi no presente daqueles dias – os dias que hoje ainda respiram na penumbra – entre quartos vazios e o luar abandonado, que sorvi o luto, gota a gota, bebendo as pedras, arranhando as vísceras e sangrando o suficiente para saber que quando o tempo passa sobre as horas de todos os presentes, a alma, solta do peso, cola-se ao corpo e chama-lhe matéria fúnebre.
Só sei que já me curei do teu cheiro dentro das paredes e do rumor da tua presença nos degraus da minha casa. Quando falo de amor, se falo, recuo muito mais do que esperava e mesmo assim já não sei preencher espaços vazios. É como se falasse de uma história de outras personagens e a fechasse depois numa lombada descosida, bolorenta.
Só sei que já não é a mesma lua, a que se levanta do lado do jardim e depois sobe para o centro dos meus olhos que antes assustavam o silêncio frio das madrugadas. E há dias em que já não sei se era o teu perfil que eu esperava, ou os nós dos teus dedos a baterem ao de leve na janela da cozinha; ou se esperava o perfil do teu perfil.

Se pudesses voltar não haveria nada de meu que te aguardasse junto à porta, esse lugar onde demorei a perceber a verdade da tua ausência.
Se pudesses voltar eu não voltaria a esse corpo que, sendo meu, me aleijava nos abraços; não voltaria ao silêncio amarfanhado das cedências e menos ainda ao desconforto das partidas.
Se pudesses voltar eu diria que te inventei; porque sempre inventamos a perfeição.

Saturday, November 01, 2008

Sol de Outono


Pego em todos os poemas do mundo e solto as rimas; pego depois nas rimas ouvindo-lhes a cinza; sopro-lhes tinta fresca e pego depois em mim, presa nos versos e digo alto a dor que finjo sentindo-lhe os dentes ácidos quando o gelo se espalha pelas ruas ao fim da tarde.

Digo também das mil sílabas que li nos livros enquanto cessava o canto, noite dentro; e do desejo descarnado que costumava rimar com harmonia para poder, disfarçado, agredir-me no silêncio e deitar-me neve sobre as mãos.

Tenho poetas presos às páginas, guardados nas estantes; prendo-lhes as palavras junto aos afagos, mesmo as mais duras ou as que vestem de luto, por precisarem da doçura das mãos quando a noite começa.

Prendo as palavras que o vento teimosamente me retira e me atira, agitando-me a firmeza contra a torrente dos dedos, quando os dedos querem escrever o que a tristeza sopra para dentro da voz calada.

Modifico depois os registos e refaço; varro lamentos, renovo a tinta, acrescento-me de ousadas virtudes e se calo é porque nem todas as rimas podem ser sopradas pelos ventos. Por isso afago-as em palavras novas e pinto o sol em todas as manhãs.





Monday, October 27, 2008

Claro/Escuro


Leio no céu o apelo, quase sempre
Indiferente às vozes de quem passa
Basta-me, agora, saber por onde vou.
Entre o preconceito e a asas
Resolvo a dimensão dos dramas
Dando passos certeiros
Ante a perplexidade dos que não ousam.
Dói-me apenas a pequenez dos dias
E a obrigação de colher frutos verdes.



Wednesday, October 22, 2008

A escrita e os símbolos

Escher

O exercício da escrita tem de ser um exercício de prazer. Podemos senti-lo como fonte de maior ou menor sofrimento se nos centramos nos nossos dramas ou nas nossas dores. Mas isso seria demasiada exposição trazida aqui a um lugar visível.
Criamos, então, personagens vivas e falamos por elas. Personagens que não se aclimatam ao normal curso do tempo e declinam com o voar das folhas secas; ou que se atrevem a desafiar a modorra estival gritando sobre a extensão dos mares; ou que se aconchegam, saídas do tempo, em pequenos nadas que transformam em grandezas de encher vaidades.
Neste acto criativo usam-se as palavras em jogos se sentimento e culpa; em distracções de bem-estar e anseio; em exercícios de representação do que não foi mas podia ter sido; em projecções dos nossos desejos ou dos desejos dos outros, já que os adoptamos e adaptamos.
Na Elipse há dois centros, nunca se sabendo qual dos dois corresponde ao que está para além do ficcionar. Ou o que fica aquém e ela converte em linha que se curva, certinha, sobre um e outro foco. Nada se pode colar à fidelidade do que aconteceu. Tudo símbolos.
Aqui o exercício da escrita é prazer puro.





Saturday, October 18, 2008

Enquanto os deuses proibiam o prazer

Blue nude - Picaso


Sei que não me alcanças as palavras
por mais que eu conjugue o verbo, ou diga os ecos das últimas sílabas;
Nem eu te alcanço o pensamento
aprisionado no silêncio dos cigarros fumados no quarto;
Difícil entrar nessa calma acesa e arredondar o espanto.
Difícil amansar os gumes da interdição sem magoar a crença.
Podíamos colocar as palavras sobre a mesa
correndo o risco de as deixar para sempre inacessíveis
Mas fizemos levedar os gestos.
Tocavas-me ao de leve, amedrontado ainda
e os olhos iam serenando na entrega
depois das ondas rebentarem no desenho do teu peito

Tuesday, October 14, 2008

Cantata de Outono



Não é por não te ter… é mais pelo castanho-claro das folhas que o vento empurra pelas ruas e pelo calor húmido que o ar carrega entre portas, onde o sossego exagera de tanto ser por fora e a inquietação por dentro.

Não é por não te ter… é mais pela crueldade diária do espelho matinal; pelo pó que se acumula na parte superior dos livros fechados, nas estantes; pela marca dos passos no mármore do chão; pela tinta que se vai gastando de tanto esconder o branco dos cabelos.

Não é por não te ter… que ter-te seria um excesso a todas as horas, não sobrando espaço para o sossego discreto que me aplaude a criação, de vez em quando.

Não é por isso, não. É pelo espaço reproduzido no vazio, pelas horas que o relógio multiplica, pela constância do silêncio a prolongar-se na mesma direcção, pelo sentido obtuso do riso unilateral, pela música sem eco no canto da sala cansada da cor dos móveis, pelo excesso de sossego em vez da festa, pelo desejo mal arrumado no canteiro adiado das sementes, pelos laços desfeitos nos presentes que ficam nas montras, pelas palavras que ditas seriam ouro e escritas ganham um peso inútil.

Não é por isso, não. Ter-te, à distância, seria ter ainda alguma coisa e mais a esperança de não definhar calada.

Friday, October 10, 2008

Culto muito antigo

Da primeira vez louvei-te os olhos
Se te lembrares ainda soa a minha voz surpresa
Ante a frieza aparente do teu rosto;

Mais tarde apreciei-te a divindade
Mas era em mim que morava a tentação;

Em ti nada sobrava; nada se deixava amar
Embora o fogo vivo dos silêncios
Chamasse o verso musicado do poema.




Saturday, October 04, 2008

Intervalo

Desinquietou-me o silêncio e a penumbra dos meses frios.

Ocupou-me o pensamento, severamente gasto em coisas inúteis como a tristeza.

Aconchegou-se a mim, ou fui mais eu, saída da sombra, em busca do tempo que ficou atrás das ousadias.

Por momentos fechei a porta ao mundo e deixei adensar-se a névoa dos incensos.

Olhos nos olhos, tínhamos o corpo todo à espera e o fascínio triunfava.

Tuesday, September 30, 2008

Ficcionar 10. (chegando ao fim)


Agora escreve.
Já te dei as referências, já te transmiti as partes da história que ela achou por bem contar-me. Tudo o resto cabe agora na arte de ficcionar e essa não conhece limites. Tu, que não a viveste nem a ouviste da sua boca, nem lhe viste o brilho dos olhos ao contar, és livre para lhe acrescentar todas as palavras.
O leitor nunca te pedirá explicações; deixar-lhe-ás o espaço necessário à sua própria construção. Porque há diferença entre o que se antecipa e o que depois se vive; entre o que se vive e o que se relata; entre o que se relata e o que depois de escreve.
Toda a verdade tem inúmeras facetas e, mesmo ficcionando, ela não perde o seu estatuto. Pelo menos para o leitor, que vê nas palavras o relato dos seus desejos menos confessáveis.
O leitor não relata, absorve. E encena a história, envolvendo-se nela. Por isso ouve os motores do avião, recolhe a bagagem à chegada, toma o pequeno almoço sentado de frente para a piscina do hotel, fuma cigarros nas esplanadas da grande avenida, descobre-se debaixo de um céu que é o mesmo mas outro e ouve a música curva mais uma vez, e outra e outra, até desejar que não haja mais mundo senão aquele que começa e acaba ali. Comprova a importância do desejo, este leitor atento que entra pelas palavras do texto e escreve a sequência narrativa. Quando escreveres não o deixes desviar desse prazer.
Ele perguntará, no fim, qual foi o fim?
Não lho dirás.
Deixa só escrito que ela cumpriu todos os seus desejos. E que não chorou na despedida. E que partiu sorrindo, regressando mais inteira ao chão real da vida.


Sunday, September 28, 2008

Ficcionar 9. (invocando a razão)


Ou não. Efectivamente sucumbi a uma espécie de providencialismo literário. Tinha-te dito que não acrescentasses finais felizes à história; contudo és sempre livre para ir acrescentando e retirando pois a concepção prévia dos caminhos não elimina entroncamentos.
Vi que paraste a meio, julgo que para pensar a sequência da narrativa. Ou para integrar os pormenores. Da primeira vez que se ouve a história fixam-se as ideias principais e omite-se ou julga-se omitir o secundário. Mas as coisas menos importantes têm muitas vezes papéis determinantes.
Quando ela me fez o relato também eu retive apenas o essencial, como ouvinte.
E é normal que, no desenrolar da história, haja sempre detalhes a omitir. Faremos funcionar, neste ponto, a figura da permuta: ficam na escrita as verdades possíveis e na memória o travo doce das sensações. Porém o jogo está montado e o leitor pode, também ele, trocar os dados e convencer-se de que ela testemunhou a devoção quando parou emocionada observando os homens ajoelhados em celebração do momento sagrado. Ao mesmo tempo as mulheres faziam fila em todas as ruas, abastecendo-se de doces para a festa. Não me perguntes se ela entendeu ou se julgou entender. A verdade é que o encanto assumia todas as facetas das histórias das mil e uma noites.
Não me parece já possível a inversão do fascínio, com leitor activo ou sem ele. Foi por isso que a ouvi invocar todos os deuses da descrença, ao mesmo tempo que pedia socorro à razão.
Mas não fales de compaixão. Ela sabia-se voluntária na teia das emoções. Foi deliberadamente que voltou ao lugar de todos os encantos.

Monday, September 15, 2008

Ficcionar 8. (reflectido sobre as analogias)

Magritte



Como vês, a felicidade acaba pincelada a cor-de-rosa e enfastia quem lê. Evitaste as cenas dramáticas ou conseguiste convertê-las em alguma coisa assim-assim, mas não te esqueças que a literatura não vive de amores completos, de vidas preenchidas e de recompensas. Ficciona-se sobre os textos vividos mas também se inventam vidas; depois talha-se e retalha-se a estrutura dos pedaços para construir o todo e escreve-se.
Ainda bem que evitaste os diálogos; também a mim me aborrecem as páginas das falas inconsequentes das personagens, em conversas de encher. Não concebo o romance linear, que começa certinho e acaba sem nódoas. Toda a sequência implica encadeamentos e alternâncias e a presença do narrador não pode ser um limite; se estiver muito presente tende a adjectivar, quando não mesmo a ajuizar, destruindo as possibilidades do leitor.

Nesta história a protagonista estava limitada pelas margens, as do espaço mas também as do tempo e nenhuma ousadia atrasaria os ponteiros do relógio. Mas o contrário é também válido porque se as possibilidades do real são inúmeras as da ficção não se esgotam.
Podes não ter clarificado tudo, podes ter deixado ao leitor a possibilidade de construir cenários, mas isso não impede que o final tenha de ser o que inicialmente estava previsto. Porque quando se começa a escrever uma história, inevitavelmente já se sabe o seu final.
Doutra forma a literatura seria igual à vida.

Sunday, September 14, 2008

Ficcionar 7. (sorrindo sobre ruínas)





Sim, a metáfora das margens, na areia onde ela desenhou o rio e ele a ponte; exercícios quase silenciosos, em gestos calmos, disse-me ela. E, apesar de se sentarem sobre pedras milenares, conjugaram futuros.
Vê como ficam bem entre as ruínas e como a conversa que podes criar para preencher esse espaço cabe inteira no paradoxo. Relata-a longamente porque eles permaneceram ali até que o sol se pôs e só depois se lembraram que estavam longe. Cheirava a mar e a terra seca; ou foi isso que lhe sugeriu o aroma da noite, ou o canto persistente das cigarras.
No espaço onde os colocámos, eles foram felizes. Contudo, vê se o escuro da noite não te impede de dizer que de vez em quando os olhos dela afastavam-se para longe. Tinha esse jeito de tornar subitamente pálidos os momentos mais genuínos, coisa involuntária, mas herdada, sem resolução. Antevia o fim, quando tudo ainda estava a meio. Soltava-se do reservatório o conceito absurdo sorvido das pagelas que lhe punham nas mãos, nos dias da catequese.
É para sempre, dizia ele.
E tu que escreves, quando reproduzires as falas, não te esqueças de as dizer noutra língua. Mas põe-no a sorrir, sempre.


Saturday, September 13, 2008

Ficcionar 6. (ligando as margens)


Tu que escreves deverás estruturar toda a história antes da primeira palavra, sem descuidar a caracterização das personagens. Mas com avisos, não vão os leitores querer identificar gente da vida real com a mulher que anteviu a aventura e voou para o outro lado do mar ou o homem enfeitiçado pelos olhos da estrangeira.
Não me parece que alguém os reconhecesse na cidade, embora e estranheza da situação pudesse chamar os olhares alheios. Nem creio que isso os tivesse incomodado. Eram seres únicos, abrasados pelo sol forte, quando era dia, e pelo calor dos corpos, quando as estrelas cintilavam sob a tranquilidade do céu. Por isso tens de descrever as horas felizes que ambos viveram nesse tempo escasso, alongado nas ruas estreitas, enquanto, de mãos dadas, espreitavam a vida em todos os becos.
Não te esqueças de dizer que ele voltou a cantar-lhe baixinho a música curva e que ela lhe ensinou as principais palavras.
Foi pelo menos assim que ela contou depois do regresso chorado, uma dor no peito à despedida e a certeza de ter vivido nas margens da ficção.
Se te distanciares muito não conseguirás perceber a intensidade do sentir que foi o deles.
Podes ir aos sítios, para poderes descrever todos os detalhes, os vividos e os outros, mas corres sempre o risco de vires a ser tu, na primeira pessoa, a ligar as margens.



Thursday, September 11, 2008

Ficcionar 5. (afogando a consciência)


Deixa ficar como está, não retires nada. Eu não cairia na tentação do relato tão romanceado. Não penso que a chegada ao quarto tivesse sido o momento mais importante da história. Contudo tinha-te sugerido que alongasses a descrição das cenas de amor.
Se captaste o silêncio estás em condições de passar ao momento anterior, imaginando que foi apenas naquele momento que nela se fez aquele alívio e tomou a decisão. É certo que só o que vem depois justifica a ousadia e ambas sabemos que o que vem depois não é necessariamente a recompensa. Foi talvez por isso que a manhã do dia seguinte despertou neles a consciência da escassez do tempo. Isto se permitirmos que a consciência tenha entrada nesta história, sendo que o melhor é deixá-la onde o preconceito lhe dá voz de comando e afogá-los a ambos no mar. A imagem surgiu-me quando ela me descreveu o caminho que fizeram juntos para chegar à praia mas fica bem aqui esta imersão das inquietações.
Não te peço que descrevas o azul do mar; o mar é sempre azul quando o céu está limpo. Mas não deixes de mencionar a tromba obtusa que emergia da transparência das águas. E ela a fugir-lhe, a fugir-lhe.
Neste ponto a protagonista pedir-te-á ajuda. Terás de intervir, poderás até entrar em diálogo ameno para que se percebam as conexões entre o mundo real e o mundo possível. Na possibilidade ela desejaria que tudo começasse e acabasse ali, sem mais espaço nem distância, resolvidos os elos de outros afectos. Na realidade, terás de ser tu a resolver as situações com as palavras. Tu, que escreves.

Monday, September 08, 2008

Ficcionar 4. (captando o silêncio)



Não se podia dizer que o quarto fosse acolhedor. Os quartos de hotel são sempre iguais. A diferença está exactamente na maneira como o dizes. Podes deixá-la à entrada da porta, ainda a colocar na ranhura o cartão que permite que as luzes se acendam; mas também podes deixá-la no escuro, já livre da pega da mala de viagem, entregando-se ao beijo que tardava. Agora sim, livres para soltarem as outras palavras, eles deixavam no silêncio o encontro dos lábios e das mãos. Mas não digas assim a saudade tão rente à pele, não te desvies tão flagrantemente da intenção do relato. O teu ofício não é narrar o que aconteceu, mas representar o que podia ter acontecido. E aqui era necessário que a colocasses à entrada da porta e que as luzes deixassem ver as marcas fundas das horas de viagem nos olhos; pintados de azul, como ele lhos louvara na primeira vez, fascinado pela presença de outro mundo naquele olhar.
E ele? Onde o colocas no espaço do quarto de hotel?
Não esperes que te diga tudo, concebe a trama; mas para a história ser verosímil deves deixá-lo também ali no reflexo que a lua fazia na janela, porque o quarto era num dos pisos superiores; no elevador ela tinha já roçado ao de leve nos seus lábios e ele fechara olhos.
Depois ela perguntou mais uma vez porquê e ele voltou a beijá-la.
Captaste o silêncio? Era importante que o fizesses porque no relato terás de escrever tudo em voz muito baixa para não quebrares o encanto do momento em que fizeram amor.


Sunday, September 07, 2008

Ficcionar 3. (procurando o sentido)


Vamos então ao relato. Ou antes, vamos esclarecer primeiro essa questão do sentido. Senti que te incomoda não saber como explicar os acontecimentos; não saber que nome dar ao impulso que desencadeou a acção. Devo dizer-te que não precisas de encontrar as razões para as coisas; nem sempre a relação causa-efeito própria dos laboratórios pode passar para os actos humanos, ou pode?
O fascínio é uma variante que não se testa nas reacções químicas e no entanto pode levar o alpinista ao desafio menos racional. Sim, o fascínio. Que pode não fazer sentido, do ponto de vista universal. Aí está o particular inerente ao ser humano.
Não procures os sentidos e relata. Começa por descrever o abraço à chegada. Não da maneira que te contei porque na realidade ela tinha de ser contida, já que estava a pisar outro mundo; podes descrever o abraço como se descrevem os grandes abraços das histórias que depois passam a filmes. Toda a verdadeira história merece ser vista por quem não sabe ler. Conta como ele sorriu quando a viu encaminhar-se para a multidão e como lhe abriu os braços acolhedores. Pedi-te que te alongasses nas cenas de amor, lembras-te?
Depois terás de voltar atrás, ao momento em que ela decidiu que iria. Mas deixa isso para depois, que antes tens de fazer o caminho que a levou ao hotel. Instala-a primeiro, antes de esmiuçares a questão das decisões.



Saturday, September 06, 2008

Ficcionar 2. (invertendo o começo)



... aliás toda a leitura é um processo interactivo e por isso tem de haver sedução na escrita. Ao contrário da realidade, onde não há leitores que interpretem nem tempo para observar, o relato não sucumbe ao tempo, esse furacão sem olhos.
Na escrita podes concretizar, preencher, inverter.
Mas não digas que ela sabia que a história tinha um fim. Deixa que os outros, os que lêem, acreditem na conjugação dos acasos, já que deles é feita toda a história e todas as histórias.
Reduz aquele fim à impressão causada pelo excesso de calor nos corpos ou simplesmente ao efeito dos ponteiros do relógio. E, de caminho, retarda as horas e alonga a descrição das cenas de amor. Se houver um sentido harmonioso e orgânico no texto o leitor constrói, não precisas de te preocupar com os detalhes. Todos os significados são múltiplos.
Não te esqueças porém, que há um lugar demarcado entre o que se passou e o que se disse; por isso apaga a fronteira, mesmo que violes as regras. É no reino do possível que se desenrolam as vidas.



Thursday, September 04, 2008

Ficcionar 1. (Antevendo o final)


Quando escreveres a história não lhe acrescentes finais felizes. Bem sabes que a felicidade é coisa de um momento, não mais. Finais felizes são ambições anteriores à consciência do desejo. Além disso tudo fica excessivamente floreado, rondando aquele fraco gosto dos romances do cordel.
Não, não estou a dizer que para ser literário tem de ser dramático mas se ficcionas tens de ser completa, tens de converter em atractiva a banalidade; a realidade não é suficientemente convincente, como sabes.
Podes dizer que ela anteviu a aventura e por isso atravessou os céus.
Não digas que se meteu no avião em busca da juventude que o tempo estava a gastar depressa demais. Se o disseres parecerá demasiado chorada a história, a raiar a lamechice.
Nem precisas de dizer que deixou escrito aquele papel explicando as razões. Isso dará à personagem um carácter calculista e não se pretende que a perspectiva seja a do excessivamente pensado. Ela agia por impulsos, dizem, sempre amarrada à força das emoções. É assim que deve aparecer a protagonista e nunca a mulher que a racionalidade tornou adulta cedo de mais.
Um final feliz pareceria coisa de romances. Sim, era de um romance que se tratava, ambas sabemos. O romance de uma vida a perder-se no labirinto intenso das contradições; e o romance que escreverás a propósito, se tiveres fôlego para uma história composta, regrada. Mas não digas dessa maneira, que as palavras podem desabar. Ela pode ter feito o percurso exacto para o tal momento, mas tens de construir a trama.
E diz, no fim, que regressou a casa consciente da importância do desejo.

Tuesday, August 26, 2008

Metamorfose


Disse que não às ladaínhas e saíu para a rua sem óculos de sol. Memórias de estios com finais dramáticos enfastiavam e lá fora o dia estava luminoso. Reparou nas borboletas brancas sobre a relva, sinal de que estava atenta, e penteou a franja com os dedos. Soletrou a palavra automaticamente. Meta… além de… depois de…
A torrente das palavras nunca dava tréguas mas salvara-se a capacidade selectiva.
Deu por si a reflectir sobre os modos de apreensão do tempo, não tanto na sua dimensão humana mas em todas as outras.
Estavam fora do alcance do entendimento imediato as estrelas com que se distraíra na noite. Era a memória de outras, as mesmas, mas debaixo de outro céu: universo. Deuses vazios de sentido em toda a extensão do espaço humano; permanência das pedras, dos mares, das árvores; permanência das memórias encaixadas nos sentimentos, mas só nas almas, que a memória das pedras está no ser e o que fica não é mais do que o pó deixado pelo passar do tempo; nos mares, o movimento das marés activa a vida mas a única fala possível é que se ouve à beira-mar quando as ondas nos dizem que-não-que-não-que-agora-não.
E era também a propósito da literatura, por causa das estantes ocas nas livrarias. Nem réplicas. Apenas histórias de gente urbana, com muita cama e pouco sentido. Sem heróis que possibilitem a poesia mesmo no calor estival com finais dramáticos.
Reparou também que as abelhas andavam laboriosas. Deviam ter andado sempre na sua luta floral, mas havia dias em que até o zumbido das asas incomodava. Sinal de que o Verão está vivo, pensou. Verão azul, leve, limpo. Luz.
Do lado de cá dos dramas, a paz.

Sunday, August 17, 2008

Contemplação



Ela tinha pena que do poço não jorrassem as palavras todas mas agora não podia, o momento era demasiado belo e a força das palavras fechá-lo-ia ao encanto da contemplação.
Foi em silêncio que lhe sentiu a pele fresca e, de olhos fechados, sorveu devagarinho o cheiro a menta.
As estrelas agitaram-se ao som da voz que entoou as sílabas onduladas da canção.
Depois nasceu o dia.

Coisas inesquecíveis





















Saturday, August 16, 2008

Matmata


Matmata é uma povoação berbere de grande interesse etnológico. Estas habitações são chamadas "trogloditas" por serem subterrâneas.


entrada

interior, visto do topo


exterior


interior do hotel Diar el Barbar, igualmente troglodita


Pormenor do interior do hotel


vista magnífica da piscina do hotel...
... deslumbramento ao final da tarde, depois de muitos quilómetros de autocarro.



Friday, August 15, 2008

A janela e a porta


A diferença é visível aos olhos: a janela permite contemplar e a porta permite ir.
Com a janela como fundo atravessa-se a solidão da escrita. Pelas vidraças passam as paisagens que as páginas descrevem e a vida é povoada de ambientes a tinta preta. O sol, pelo lado de fora, dá cor às letras mas aquece pouco.
Caminha-se pelo corredor, pelo lado de dentro da janela; para lá e para cá, ao encontro de mais solidão. No jardim as flores estão também aprisionadas e o vento que as agita prende-se ao lado de dentro dos muros.

A porta abre a vida e abre a esperança. Atravessá-la é deixar a escrita nas páginas e partir. A criatividade cansa; as narrativas levam o corpo à exaustão fingida e quando se relê a história já não se sabe por que razão se preencheu o vazio.
Para lá da porta a simultaneidade do tempo ajusta-se às horas e, sem espelhos que multipliquem as histórias, vive-se a parte cheia de cada momento. Lê-se o nascer do sol, mastiga-se a poeira e absorve-se a loucura das árvores quando o vento as agita nas copas e o dia se prolonga até ser noite.

Thursday, August 14, 2008

Cheiros e cores


Sinto-me transportada para outro mundo na memória dos cheiros.
Os mercados abertos, as vozes, os sorrisos das pessoas... e a diferença ...
A atracção para os que vêm de fora e querem reter as lembranças.
Recomendaram-nos que não comprássemos. Os mercados não primam pela higiene.
Contudo o que fica é ainda ... encanto.

Tuesday, August 12, 2008

Roteiro de uma viagem por outros mundos



Chega-se a um outro mundo.

Tem-se a consciência de estar verdadeiramente noutro continente, embora a pobreza não nos seja estranha e muito menos a ostentação dos privilegiados. Tem de tudo a Tunísia. Mas chega-se a um mundo diferente onde o calor é uma onda que nos bafeja e nos envolve: umas vezes deixa-nos o corpo sem acção; outras vezes atiça.
Tunis é um caos mas na avenida Bourguiba anda-se à vontade na azáfama do dia; melhor ainda na luminosidade da noite.
Cartago prende pelo azul do mar: um azul que nunca tinha visto, mesmo conhecendo já o Mediterrâneo. Encanto à chegada. Local de cruzamento de civilizações, com marcas de vários passados.
Sidi Bou Said é uma encosta cheia de azul nas janelas e nas portas. E de novo o mar e o cheiro a encanto. Chá de menta para refrescar, numa esplanada. E o assédio dos vendedores, o regateio até à exaustão. Os dinares tilintam no meio das pulseiras e dos brincos. Vem ver, vem ver!
As águas são transparentes em Hammamet e daqui para a frente toda a costa está pejada de turistas, de Sousse a Monastir. Divertem-se os europeus nas águas quentes e na movimentação estival.

Prosseguimos e entramos de novo no passado, em El Djem, onde um coliseu quase intacto nos confronta com mais algumas marcas da presença romana.
Ilha das sereias – Djerba – onde dois mundos convivem: o mundo árabe e o mundo judeu, a sinagoga e a mesquita. E a sedução da joalharia. E a paisagem.
Depois Gabes, a linha costeira, as indústrias, raras neste país de contrastes. E estamos a entrar na paisagem lunar de Matmata, povoação berbere com habitações trogloditas, escavadas na montanha, buracos frescos na secura árida da envolvência. E depois Kebili, a porta do deserto, a caminho de Tozeur, a região dos palmeirais. Deliciosa a frescura dos oásis, nas três alturas dos seus cultivos, das ervas de cheiro às palmeiras imponentes. Pelo meio os figos, as romãs…
Tozeur… onde deixei o coração.
De regresso à capital ainda se visitam as ruínas de Sbeltla onde se fotografam os capitéis, quase intactos, que envolvem o teatro romano; e depois Kairouan, a quarta cidade santa do Islão.
Cheira a especiarias e a couros e a perfumes no regresso à Medina de Tunis. Tudo brilha. O colorido enche os olhos. Regateiam-se os preços naquele ritual próprio e os vendedores insinuam-se com as mulheres ocidentais. É um jogo de sedução que se alimenta. Negócio à vista.
Trouxe uma mala de encantos. Meia dúzia de bugigangas e um torvelinho de emoções.
Tenho de voltar.





Sunday, August 10, 2008

Regresso




Trago uma mala de encantos sem fecho nem cadeado, um cheirinho a noites quentes, um colorido
nos olhos, uma pulseira de cobre e uns pendentes caídos dos cabelos encrespados pelo vento da
planura, pelo sol que no deserto nos atravessa a loucura e nos encanta o sorriso copiado de outros
olhos; trago tâmaras e sons, vozes meladas, odores; trago rosas do deserto misturadas com o
mar; encantamentos de azul, mil e uma noites só numa.
Trago uma mala de encantos mas deixei o coração perdido nos palmeirais.





Saturday, August 09, 2008

Coisas inesquecíveis









Talvez volte a escrever.
O sol tórrido e os cheiros e os sabores e as cores e as emoções...
Volto a escrever, sim.



Tuesday, June 17, 2008

Pregar aos peixes

Foi um Visionário, um diplomata, um pregador da Capela Real, um conselheiro avisado, um humanista, um lutador pelo respeito da dignidade humana, à frente do seu tempo, e um artífice, como houve muito poucos, da palavra dita e escrita.
(excerto do enunciado de um exercício da Prova Escrita de Português, hoje, a propósito do Padre António Vieira)


É Visionário quem efectivamente vê para além do visível.
O Padre António Vieira via, na cor da pele do outro, não o sinal da diferença geradora da recusa que leva ao domínio, mas tão só o sinal do respeito que um ser humano adquire à nascença.
Era também um conselheiro avisado que advertia os governantes num manejo assertivo da palavra escrita, arte de apenas alguns, os que são depois lembrados pelos séculos dos séculos: “ou vedes ou não vedes: se o vedes como o não o remediais e se não o remediais como o vedes?”, escrevia Vieira no século XVI. E dizia, pregando aos peixes: “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam 100 pequenos, nem 1000, para um só grande.”
E hoje?
Sujeição ao politicamente correcto; respeito institucional, cumprimento da lei, preconceito, ganância, medo.
O politicamente correcto espartilha-nos na polidez imposta; o respeito institucional limita-nos nos anseios de sobrevivência; o cumprimento da lei cega-nos a criatividade; o preconceito envenena-nos a racionalidade; a ganância faz com que nos continuemos a comer uns aos outros como se o mundo acabasse amanhã; o medo bloqueia-nos a acção.
Por que incentivo à fuga?
Não se trata de culto gratuito ao desrespeito mas sim de defender o pensamento e a razão, valores quase perdidos numa sociedade virada para as tecnocracias e para a facilidade do ir atrás dos outros. Questiono as atitudes, não o dever de cidadania.
Onde está a valorização do lado humanista de cada um de nós?

Monday, June 16, 2008

Reformulando as formas da lua



Era a propósito dos quadrantes da lua e eu perdia-me em narrativas de palavras levemente musicadas para produzirem o efeito harmonioso da leitura fácil. Dizia de quatro cruzamentos do astro com as marés e de quatro exclusões cicatrizadas. Dizia, como se diz na leveza das palavras fáceis, de um torpor de brisa e de uma paz de sossego inquieto. Dizia – invocando os quadrantes do vento – da orientação magnética, certeira depois de cada perda. Tudo em quadrantes de quatro fases, dizia, afirmando aos olhos a visão dos céus.

E digo agora, sob o peso da dificuldade de dias exageradamente quentes – dias que queimam a calma e deixam o rasto das cinzas no cabelo – digo agora, vencida a cegueira dos excessos, escritas na areia as certezas (não venhas ainda mar), lavradas em sílabas ditas, repetidas, repisadas; digo agora que nego a visão dos céus nos seus quadrantes e invoco os deuses mais antigos, pedindo-lhes os néctares do discernimento, para afirmar que a lua tem apenas duas faces.

E digo ainda que findou o tempo faseado em dois.
E depois disto a vista enrugou, encovou, enevoou; as ideias mascararam-se, quebradiças, informes, submersas; o tempo gastou-se em todos os relógios e deixei ir com ele os meus dois braços.

Thursday, June 12, 2008

Im(perfeições)


Os romances chegam sempre ao fim demasiado depressa
e os heróis estão caídos sob o efeito de um calor precoce;

No horizonte repousam as horas
e as esperas ansiosamente lentas
agitam-se num rumor de águas revoltas.


Os rios correm sempre para o mar demasiado depressa
E os peixes contorcem-se silenciosamente;

No céu as nuvens desfazem-se outra vez
sem forma que as contenha
nem rumo que as empurre.



Tuesday, May 27, 2008

Horizonte

- E nos teus sonhos, como está o mar?
- Agora está sereno. Vejo-lhe, na transparência, os novelos das águas; e soltam-se as bolhas de ar à superfície. Apetece-me explorá-lo até perder o pé.
- E não tens medo?
- Claro que tenho. Mas ficar em terra é mau. Ali naquele lugar onde rebentam as ondas até a espuma se desfaz na areia.

Sunday, May 04, 2008

Fios de seda colorida para bordar em linhos novos



Declinou o dia e com ele os retalhos emendados na neblina destes pensamentos velhos; não gosto do anoitecer precoce quando a hora se faz tardia nem deste gosto embaciado do serão inútil. O gato roça-se e aninha; e eu sem serenar remexo nas palavras e vou organizando os papéis eternamente dobrados sob a tentativa da harmonia.

Podia começar assim o romance se me atraísse a prateleira visível do nome exposto. Mas o que me atrai é a vida.
Foi excessivo o tempo de repouso nas sombras; descubro-me agora na azáfama de outro querer e movo-me, activa, preparando o espaço.

Uma frase forçou a tarde; ou era a imagem de um limoeiro velho, drama de querer um começo e não dar com o caminho. Não me agradam as trivialidades mas também não me apetecem palavras semeadas sem métrica ou melodia.
Terei de as bordar em linhos novos com fio de seda colorido.

Monday, March 24, 2008

Bordando sombras

Ao fim de tantos anos o vento ainda uiva na varanda
Enquanto eu bordo as palavras num linho desbotado.

Não é que me apeteça ser esta ilusão de repouso na noite
Posso sempre fechar a porta ou esconder o corpo
Entre o linho e as palavras

Não é que me surpreenda a súbita chegada das sombras;
A memória das coisas é sempre o dia claro
Mesmo que seja noite.

Porém morro ainda no instante verbal
Sendo a morte apenas a palavra acorrentada.

O resto é o uivar do vento por dentro da solidão.





Friday, March 21, 2008

Eis que ela chega

aproxima-se devagar

e traz as cores

e o prazer de contemplar




Thursday, March 13, 2008

Perspectivando caminhos




















Mesmo que se vagueie há um caminho
trilhado justamente no eixo principal
onde costumam estar os dias e as noites
seguindo-se, sem surpresas acrescidas;

Perdem-se os passos na indecisão cruzada
dos caminhos secundários
ao encontro de noites vagamente fingidas
ou da viuvez massacrada das árvores seculares.

Analogia discreta e vagamente torpe
já que é diurna a escolha
sendo as noites lugares de desassossego
e promessa de eixos seguros...


... ou apenas desejo de vida.



Friday, February 22, 2008

Palavras desafiadas


Foi um desafio que veio de um jardim. Tinha de construir um texto com doze palavras escolhidas.
Como falava de palavras, aqui estão elas:



.búzios. olhos. filhos. palavras. labirinto. memória. tempo. asas. bruma. poesia. verdade. sorriso.

Antes usar as palavras todas; escolher é tarefa difícil e eliminar é cortar o significado, embora seja bom jogar com os sons e não apenas com os sentidos.
Por isso digo bruma como se fosse música; e labirinto a prolongar o eco pelos caminhos da imaginação; depois digo búzios, deslizando num areal de murmúrios ao ouvido.
Mas se disser memória penso num lugar desordenado pelo tempo; lugar onde a verdade é construída à distância das emoções e para onde as asas nos levam mesmo sem querermos. E se disser sorriso rasgo a dimensão da pele, já refeita das assimetrias dos últimos dias, com os olhos sempre a ver redonda a realidade.
Porém, quando digo filhos digo poesia.


Tuesday, February 19, 2008

às vezes é o que apetece...

“Quando a última carruagem saiu do pátio de entrada de Queluz, o que um dia fora um retiro sagrado da realeza começou a ganhar o ar de edifício condenado. Da coluna em movimento lento, o palácio via-se cada vez mais longe, as paredes molhadas pela chuva já não pareciam imponentes, as sebes aparadas, a intrincada escultura dos arbustos, as fontes e as estátuas esvaziadas de poder simbólico.
Na cidade um enorme número de pessoas movimentava-se entre o emaranhado de ruas e (…) apinhava-se no cais (…).
Na manhã de 29 de Novembro (1808) foi dada ordem para levantar âncora. (…) Atrás de si, o esquadrão real deixava um cenário desolador; bagagens, papéis ensopados em água e caixotes abandonados espalhavam-se pelo cais; a lama, muito pisada, começava a secar, deixando marcas da recente agitação – um caos de pegadas, torrões e linhas em espiral. Entre os detritos jaziam artigos inestimáveis do património da coroa, deixados para trás na pressa de partir. Coches luxuosos com arreios em belíssimo estado, muitos ainda cheios de valores retirados dos palácios, estavam parados nas docas vazias; catorze carradas de prata das igrejas foram abandonadas aos franceses e os sessenta mil volumes da biblioteca real da Ajuda espalhavam-se na lama (…)
Podemos nunca vir a saber ao certo quantas pessoas conseguiram embarcar na frota, mas parece que cerca de dez mil saíram de Portugal para o Brasil, na primeira vaga – um número impressionante se tivermos em conta que a população de Lisboa naquela época não ultrapassava as 200 mil almas. A um vasto séquito de cortesãos – cirurgiões reais, confessores, damas de honor, guarda-roupas do rei, cozinheiros e pagens – juntava-se a melhor sociedade lisboeta – conselheiros de estado, sacerdotes, juízes e advogados, juntamente com os seus familiares. Do núcleo original da coroa e dos funcionários governamentais, subornos e pedidos de favor tinham alargado o grupo para incluir funcionários subalternos, homens de negócios, familiares distantes e penduras variados. (…)”
Patrick Wilcken, Império à deriva, ed. Civilização, 2004

Monday, February 18, 2008

criação ou continuação ou o fim do intervalo



Devolvo-te agora o sorriso inteiro, intacto, elástico, fantástico.



Thursday, February 14, 2008

o colo que cria ou a criação do colo

Picasso

Pus-me em segredo no teu colo e tricotei um rosto

e assim sonhei ternura
e bordei trevos às escondidas.



Tuesday, February 05, 2008

desfocagem

Picasso


Que deu ao pintor para se pôr a colorir as lágrimas?
Quem lhe disse que elas são confetis ou cones de gelados infantis? E os chapéus barcos de lançar aos charcos nos Invernos lamacentos?
Quem o mandou desfocar os olhos e pôr saliências nos dentes?
Com que mãos limpou o rosto da mulher chorosa e lhe pôs fragilidades nos lábios e depois lhe alisou os cabelos.


Maldigo-te pintor pelos teus olhos embaciados.

Assimetrias

Picasso

São ainda muitos os dias em que abençoamos o sol; contudo não conseguimos evitar as madrugadas frias, quem sabe se por um certo finalizar trazido pelo avançar dos anos, gelos mal distribuídos, quando antes era o calor a derreter os excessos. Lacrimeja um pouco a pálpebra, defendendo-se calada, e se fechamos os olhos nem tão pouco é para conservar o calor do lado de dentro mas para os poupar apenas.
Desconstrução maldita, diria a pessoa, enquanto o pintor se deliciava no desmantelar da realidade.
Criação, repartição, gozo fiel, sem tirar nem pôr; ou punha as cores, o artista e triangulava as formas de fugida.

No fechar dos olhos encerramos a bênção do sol que agora é um desejo, mais do que o calor que regenera, e pedimos ao dia seguinte que nos ceda um milímetro de espaço para minimizar a desengraçada e pungente assimetria dos gestos.


Sunday, February 03, 2008

pequenas conversas, grandes enigmas ou de como é difícil sorrir


Não forces o sorriso que te estragas; não olhes, não fixes o real mais do que o necessário; não pronuncies as palavras inúteis, nem todos os ouvidos as merecem. Segura a lágrima, que te faz falta à secura das horas mais amargas; fecha os olhos, se puderes: uns dias de cegueira clarificam a vida ou ela é sempre clara e são as pálpebras demasiado abertas que não permitem visões certeiras.
Não sorrias ainda, a vida espera um pouco enquanto te seguras e te retrais; aligeira a carga, espalha os cabelos ao vento, estica a pele enrugada, movimenta a face trôpega; desfruta, se fores capaz, das horas inactivas: pára, paira, pasma, descansa, cria.
Aguarda o tempo necessário ao retorno da normalidade. Ela virá.

Saturday, January 26, 2008

Prosperidade

imagem daqui
A memória fica frouxa e ao mesmo tempo a saúde declina: hoje doem as mãos, amanhã o corpo e no outro dia já passou tanto tempo, ainda que não se perceba como, porque foi quase ainda ontem que os filhos nasceram e se fizeram homens, cada um com a sua vida e as famílias complicadas, discussões, separações e outras situações; enfim, estamos sós, diz o velho, depois de urinar sangue, desconfiado que a partir de agora não há muito mais a esperar da vida; ela tem mais fibra e estende ainda ao trabalho as mãos e a garra. Sorte a deles, que podem queixar-se um ao outro, as palavras ajudam e a presença alivia a solidão, que mesmo juntos nem sempre a vida foram rosas. Sorte se vivem perto das emergências, se bem que o longe é relativo, dizem os governantes, no meio de inaugurações: hospitais? não nos perguntem essas coisas agora que o tempo é para celebrações e o Alqueva vai dar de beber a muitos milhões. Fome? Isso é conversa das oposições. Doença? Não, não estamos doentes, somamos números em vivas recuperações. Os velhos? Quais velhos? Os velhos já não existem. Falemos de prosperidade que desse assunto já nós cuidámos para bem de todos e da economia das nações.

Sunday, January 20, 2008

as cariátides



Sem cabeça seria apenas corpo;
corpo flexível, arrumado, curvo
corpo em movimento, girassol abrindo.

Sem cabeça não me deitaria fora
todos dias ao final da tarde
para no dia seguinte acordar fingindo.







Tuesday, January 08, 2008

à procura do Sol





Saturday, January 05, 2008

dias ásperos


Modificações, mudanças, promessas, cinco tostões de ódios já digeridos e outras coisas sem valor amontoadas a um canto, histórias que nunca mais se repetirão, as melhores e as outras, e a vontade a acender-se contra as rugas das paredes; ásperas também as recordações e os desejos, esses menos porque toda a tempestade amaina, tarde ou cedo; e as vidas a resolverem-se, nem bem nem mal que o bem-estar alheio só o é para os olhos menos avisados; tomara ter a menos o peso do lastro que fica fechado entre muros ou ser herdeira de portas encerradas e estar para lá das fechaduras, sem esta demora na ousadia ou esta vontade miudinha de desistir, que a vida não pode adiar-se nem fechar-se entre o sol filtrado e o gelo que se instala quando cai a noite.

Wednesday, December 26, 2007

se alguma coisa rompesse a penumbra


A mão que escreve tem a mesma exigência que macera a alma
como se fosse uma respiração mal conquistada
ou um coágulo maldito a bloquear a veia
que pulsa avassalando cada noite;

Nada me merece a vista; nada me aquece o frio dos olhos;
nada me surpreende a lassidão do estar,
nem tão pouco veneno que corre em regatos
ou a rosa branca pendente dos espinhos

Uma avenca rompe da fenda dos tijolos
e eu sinto-lhe o contorcer da força
como um pulsar exigente; o veneno da beleza
invadindo a penumbra que flagela a vida.

Monday, December 24, 2007

E como... se as flores nascem todos os dias

Arranco da terra esta pedra e esta pressa
Cansada de lugares comuns e presa à espera

Vagueio com os mortos e sinto-lhes a fome
E mesmo o nascer das flores ressoa na imperfeição do instante

São comerciais as alegrias alheias
Vendidas sob as máscaras da utilidade dos gastos

Das canções desbotadas retenho as vírgulas
Que pouso nos lutos geminados com a loucura

E não sabendo como cantar, digo baixinho um grito
Obscuro, veemente, negro, gasto…

Sunday, December 16, 2007

tempo


Vestiu-se de folhagem o Outono e era verde o sol nos intervalos.
Percorríamos ainda os labirintos em busca de deuses impossíveis.
Ficou suspenso o tempo enquanto as estações se sucederam.



olhares de pedra

Todo o caminho para os deuses é um labirinto
Percorrê-lo pode demorar a vida toda
Para ter como prémio a pedra dos olhos.


Saturday, December 15, 2007

folhas velhas em águas turvas


Não se pode dizer que seja a coisa em si, mas o conceito.
É ele que ensombra a memória e a faz recuar ao desconforto do gelo nos dedos dos pés apertados nos sapatos de calçar ao domingo. Mas é no aqui e no agora que o frio permanece, sem que o tempo consiga esclarecer-se, enquanto eu estava de mão dada a outra mão maior e não conseguia dizer que o frio me apoquentava.
É também a ideia que aparece na memória a esmagar os risos depois das horas de brincadeira; uma ideia que fustiga as possibilidades do bem-estar sem culpas.
O mundo dos adultos era um lugar estranho visto de todos os ângulos; para quê então a pressa de crescer, naquela altura?

Hoje nada disso interessa. As personagens vão saindo de cena e nada mais fica para além da memória dos dias distantes, resolvidos quase sempre, mas fazendo parte de um todo que se alonga com o passar dos tempos.

Wednesday, December 12, 2007

o mar dos mitos

A caminho da ilha de Gozo

Regressava Ulisses ao lugar das palavras certas e o mar incerto enviesou as águas ou foram os ventos que ganharam asas ou o canto das sereias a desafiar certezas.
De relance vi-lhe a ousadia da silhueta. Era divino o cheiro a mar visto de perto.






Thursday, December 06, 2007

Voo sobre paisagem de mar

O Mar visto de Malta

Era a hora irreal do dia, a hora da bruma à beira-mar e dos sussurros dos búzios pousados nas areias; e eu a inventar realidades sabendo ser ainda cedo para o voo da tarde; mas já o céu cintilava, já a noite se vestia de sonho e as ondas soltavam-se de encontro à rocha, às escondidas.
Por ser a hora irreal do dia, a hora dos sonhos que desfazem todas as brumas e abrem caminho à invenção de todas as realidades, declarei que o voo se faria ao fim da tarde. A noite vestir-se-ia de marés soltas e aguardaria a chegada da manhã. A revelação poderia estar no lugar em que as rochas recebem as ondas e lhes abençoam a violência.

Wednesday, December 05, 2007

Discriminação e Tolerância

M'sida Campus, em Malta

Serão sempre as estruturas de poder que geram a discriminação ou essa é uma coisa inata no ser humano, cuja tendência é dividir, separar e classificar?
Será que a tolerância desaparecia se o poder fosse mais justamente distribuído? Ou esse é um sentir tão profundamente integrado na natureza humana que logo assumiria outras formas?
Há sempre uma diferença entre as pessoas, uma diferença da qual ninguém pode demarcar-se: o que é bom para mim não é necessariamente bom para o outro. É aí que reside e diferença e é por isso que se discrimina ou se tolera.
Talvez se possa dizer que ao longo a História a tolerância existiu sempre que o controlo por parte do poder não era possível; desse ponto de vista tolerar é assumir o domínio e consequente minimização do outro. Será, pois, a tolerância uma recusa?
Contudo, em questões de natureza religiosa não se pode falar em tolerância uma vez que estão em causa práticas ligadas a valores. Ganha a exclusividade e por isso prevaleceu a lógica da conversão. Ou a sua imposição.
Tolerância absoluta seria um problema para os Estados. Tolerar tudo seria prescindir das regras e das normas que nos regulam os comportamentos. Ou não?
E nós, o que é que toleramos quando somos tolerantes?

Não era preciso ter sido em Malta, mas calhou ser lá o lugar da reflexão. Gente da História e de outras áreas das ciências humanas juntaram-se para cumprir mais um encontro em honra da deusa Clio.

Wednesday, November 28, 2007

Sirvam-se

Não vou estar por cá, mas a quem passar por aqui no dia 1 de Dezembro, ofereço uma fatia de bolo.
Andarei à volta da Discriminação e Tolerância, em Malta. Farei depois o relato das impressões.
Conto ficar, depois do regresso, com mais tempo livre para cuidar dos textos.

Sunday, November 18, 2007

Olhos claros

Há dias de Outono em que nos apetece semear a Primavera.

Monday, November 12, 2007

Ser mãe quando a filha é a Flávia


Acorda-se da letargia quando se pressente que o nosso torpor é um momento a menos na continuidade que é este correr cego, desejando-se ardentemente estar bem a toda a hora. Não que isso seja um desejo absurdo, pois a vida é curta demais para ser desperdiçada em intervalos. Mas às vezes há coisas que nos obrigam ao soluço encorajador. Um soluço solidário.

Quando penso que sou mãe de dois filhos normais e saudáveis, que seguem o seu percurso com objectivos, ultrapassando os obstáculos um a um pela sua capacidade de estar aqui, penso que por muitas coisas que me faltem para me sentir bem, essa parte, pelo menos, está cumprida.

Há uns anos li um romance de uma mulher que escrevia sobre a sua família na esperança de que a filha, em coma, o pudesse ler quando despertasse. Li-a porque gostava e gosto de tudo o que Isabel Allende escreve.
Por estes dias, por indicação deste blog, tenho estado a ler a história de uma mulher que escreve em circunstâncias muito semelhantes, mas com o objectivo de conseguir JUSTIÇA. Não creio que Odele espere um milagre, embora o sorriso da Flávia o merecesse, como o mereceria o sorriso de qualquer filha. Mas era bom que a sua luta fosse bem sucedida, ao menos essa…

Friday, November 09, 2007

Hibernação 2.


Salpica-me o sol destes dias pequeninos.

Dói-me o corpo de lagarto escondido nas frinchas.


Sunday, October 28, 2007

Hibernação 1.


Talvez hiberne.
Basta reduzir a actividade ao mínimo exigido pela sobrevivência, respirar devagar, deixar o coração bater devagar, sentir baixar a temperatura do corpo, devagar. Ficar assim durante a estação fria, ouvir o cair da chuva ao longe, se houver chuva e deixar passar por cima das palavras adormecidas as folhas velhas.

Friday, October 19, 2007

quadrantes e luas em cruzamentos quase possíveis


Era a propósito dos quadrantes; os do vento e os da vida, que os quatro cantos de tudo são sempre a possibilidade esquartejada, tendo em conta a unidade impossível.
Era possível ter sido diferente, pelo menos na contingência dos “ses”, sendo eles os caminhos excluídos e, só por isso, os que se adivinhariam a alternativa perfeita. Ou a diferença poderia estar nesta consideração, decalcada da rosa-dos-ventos e por isso limitada ao rigor das quartas partes, sendo a vida mais do que isso.
Quatro vezes excluí de mim o quarto crescente. Nem sempre fui voluntária mas, avaliação feita, cruzaram-se o mal e o bem, como se cruza o céu com a terra ou a lua com as marés.
À primeira foi como perder um membro. De vantagem apenas a robustez da cicatriz. Ponto quase final.
Depois a paz, brisa – não vento – a entorpecer até ao excesso. Sossego inquieto depois de quase perfeito.
A meio, a exigência de torvelinhos enviesados, vulcões vindos de dentro, ânsias recalcadas, ousadia, desafio quase completo.
Depois o quarto céu, a zurzir num cais ventoso, quase real.
Assomaram ainda algumas orientações colaterais mas não me lembro do sopro.
O mais, foram quartos minguantes.




Sunday, October 14, 2007

O que foi que eu disse?


Depois passaram dias, muitos dias, disse eu como só os velhos dizem quando contam histórias moídas pelo mofo dos Outonos; e dos dias passados ficaram memórias sopradas pelos ventos de todos os quadrantes; memórias incrustadas na raiz dos anos, às vezes espinhos enclausurando mistérios. E depois das memórias embrulhadas nos dias todos, gravadas neles como riscos afundados no lado de dentro da pele, disse de novo que em cada estação renasce o outro tempo, o da mudança; e que a mudança apenas anuncia a conformação, não vá o informe perder-se por ausência de limites.
Limito-me a constatar os encantamentos, digo ainda: a claridade que em certos dias de Outono se solta em raios por detrás das nuvens, a encosta a verdejar nos olhos, o cheiro muito forte da terra…
Submeto-me ainda à ilusão das palavras mesmo sabendo que o que nelas passa a símbolo não é mais do que o fascínio e a construção dos olhos. Contudo afaguei o vento e, de mãos abertas, desconstruí a maior parte dos silêncios.
Foi preciso aguardar o momento certo para ver sair do casulo a simplicidade.

Tuesday, October 09, 2007

Imitação do Outono



Se é um tronco posso imitar-lhe a robustez
e copiar-lhe o castanho forte;

Se é uma raiz posso pedir-lhe a força
e ligar-me veementemente ao chão; somos irmãs.

Depois virá Zéfiro e levar-me-á nas folhas douradas,
abanando-me os ramos mansamente.

Com elas irei, asas sábias de aves migratórias,
ou tapete estaladiço sob os pés de meninos em corrida.




Monday, October 08, 2007

Eslovénia





É de facto um país pequeno e pouco populoso – um pouco mais de 2 milhões de habitantes, estando cerca de 1 milhão e meio na República da Eslovénia e os restantes dispersos como minorias nas regiões fronteiriças com a Itália (Friuli-Venetia Giulia e Trieste), com a Áustria (Carinthia), Hungria (Porojabe) e Croácia.
Resultado de um longo processo histórico cujas últimas mudanças ocorreram em 1991 – quando se tornou um Estado independente – e em 2004, quando se torna parte da União Europeia, a Eslovénia é uma surpresa para quem, como nós, se habituou a ter apenas uma fronteira a leste. Aqui o resto é mar e é no mar que está parte da nossa História. Lá, há toda uma riqueza de influências que são o resultado de movimentos sucessivos de povos e do cruzamento de ideias e culturas diferentes.
Foi tardio, ali, o despertar da consciência nacional. O peso do Império Áustro-Húngaro foi longo e só depois da Primeira Guerra Mundial surge um esboço de projecto político.O papel das minorias? Grande, porque foi das comunidades que viviam no exterior deste espaço que veio a força organizativa que visava impedir o extermínio da etnia eslovena pela Jugoslávia federal. Ocupação militar e depois tentativa de neutralização da língua foram as estratégias tentadas mas a resistência surtiu efeito e hoje não é só no solo pátrio que os eslovenos o são: são-no também nas regiões fronteiriças onde, apesar de minoritários, a língua, os costumes e o direito de se ser esloveno está consignado na lei.
E depois é surpreendente como uma cidade pequeníssima (Maribor) tem uma Universidade tão grande e tão organizada e tão cheia de departamentos de tudo e mais alguma coisa. Para não falar no teatro e na ópera e nessas coisas que não estamos habituados a ver funcionar entre nós.
Cansada da distância, mas mais rica depois de ter lá estado.
E sim, correu tudo muito bem!



Sunday, September 30, 2007

A Intolerância

Um dos casamentos de D. Manuel

Tudo começa quando o rei D. Manuel, para satisfazer os «escrúpulos religiosos» de D. Isabel – a noiva castelhana filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos – decide expulsar os judeus do território nacional.
Os cronistas relatam pormenorizadamente a questão da expulsão, descrevendo os pareceres – que o próprio monarca pediu – divididos entre os que eram favoráveis à permanência dos judeus em Portugal e os que defendiam a sua expulsão.
Diziam os primeiros que se o papa permitia a permanência deste povo nas suas terras, tal como o permitiam a Hungria, a Boémia, a Polónia e a Alemanha, por que não seguir-lhes o exemplo? A expulsão levá-los-ia directamente para o norte de África onde a esperança da conversão se perderia e, pior do que isso, onde eles iriam ensinar aos mouros os “truques” a usar contra os cristãos. De igual modo o rei perderia serviços e tributos e o reino perderia talentos.
Diziam os segundos que se a França, a Inglaterra, a Escócia, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia os expulsaram e sendo Portugal vizinha de Castela e de França, corriam-se sérios riscos de se verem prejudicadas as relações com estes países. Por outro lado as vantagens, tendo em conta os tributos e os serviços que podiam prestar ao reino, eram menores que os riscos que se corriam.
Tomada a decisão, no início de Dezembro de 1496 o rei determina: “que os judeus se fossem do reino, com suas mulheres e filhos e bens, mas também os mouros pelo mesmo modo", para que lhes limitou o tempo e lhes nomeou os portos de embarque.

Friday, September 28, 2007

A tolerância

Lisboa no séc. XVI

Desde a criação do Reino de Portugal até à promulgação do Édito de Expulsão (1496) supõe-se que terá havido um clima de relativo convívio entre as populações cristãs e judaicas; a existência de judiarias (sempre que a comunidade era superior a dez elementos) nem sempre foi extra muros, embora com o passar dos tempos se tornasse comum essa localização.
Sabe-se que D. Afonso Henriques nomeia um judeu como seu almoxarife-mor.
Os primeiros reis protegem-nos e contam com eles (e com os mouros) para o povoamento do reino, por isso são-lhes dadas terras, assistindo-se a uma certa prosperidade social e económica em virtude desse clima de integração. Muitas vezes são utilizados como diplomatas ou espiões dos reis portugueses, entre os turcos e os mouros, pela facilidade com que se relacionavam com os poderosos no comércio.
D. Manuel chegou a recorrer a Abrãao Zacuto, conceituado astrónomo judeu expulso de Espanha, para saber da possibilidade de uma viagem até à Índia.
Chega a questionar-se este ambiente de tolerância religiosa sob a alegação de que a violência constitui um traço central da relação entre cristãos, judeus e muçulmanos, uma violência exercida de forma constante na vida quotidiana.
De facto há conhecimento de vários assaltos, particularmente o de 1449, ocorrido na judiaria grande, em Lisboa; porém, também há notícia de medidas exercidas sobre os cristãos que roubam. São episódios esporádicos e, ao que parece, não directamente relacionados com questões religiosas.
Até ao reinado de D. Manuel a convivência foi, pois, relativamente pacífica.
Sobre a comunidade mourisca sabe-se pouco. Seriam uma minoria de condição modesta a viver em mourarias, diminuindo em número durante toda a Idade Média, devido à conversão e assimilação progressiva de uma parte (mínima) e à emigração para a Espanha Islâmica e Maghreb. A maior parte destes mouriscos constituíam mão-de-obra escrava.
No Paço Real havia músicos mouriscos que cantavam e tangiam com alaúdes e pandeiros, charamelas, harpas, rabecas e tamboris – ao som dos quais dançavam os moços fidalgos durante o jantar e a ceia.
Além de bailarem, ocupavam-se de serviços do campo, tratavam dos animais e cozinhavam. Podiam dedicar-se ao comércio mas se o faziam era para vender produtos de raiz agrícola, vinho, azeite ou fruta seca. Quando escravizados podiam constituir sinal de riqueza para quem os possuía: podiam ser emprestados, oferecidos ou mesmo constar nas heranças dos seus donos.
As mulheres faziam o acompanhamento de senhoras em saídas festivas, trabalhavam na seca do peixe ou como lavadeiras: a limpeza da cidade era assegurada pelas mil "negras da canastra" enquanto outras mil carregavam água dos chafarizes para as casas: um vintém para o senhor e outro para a trabalhadora escrava ou forra. Mil e quinhentas lavadeiras e ensaboadeiras por conta de outrem – “mulheres e negras” – tratavam da roupa de seus donos.

Monday, September 24, 2007

Sem tempo para nada





Durante uns dias não consigo fazer mais nada.

Por agora circulo entre luzes e sombras... enquanto me preparo para ouvir falar sobre Discriminação e Tolerância, no âmbito da temática das Minorias.

Também vou falar mas não é sobre blogues, nem sequer sobre poesia. É acerca das minorias em Portugal no século XVI, particularmente Judeus e Mouros.


Depois de regressar dir-vos-ei como foi.

Saturday, September 22, 2007

luz/sombra



Era o céu a rasgar-se numa espécie de dia fora do tempo e eu concentrada na direcção circular que me trazia de volta a um lugar sem trevos mas, ainda assim, acolhida na frieza da fechadura que me reconhecia a mão.
No lado de dentro, a salvo do relampejar fino que me iluminara o caminho, o silêncio alimentava-se dos céus zangados e incomodava-me o nervo frágil.
Saí a refrescar o medo sem ter descortinado se me satisfazia ou me desagradava o excesso de ordem e a submissão aos elementos.
A chuva arrefeceu-me os braços despidos. Depois deitei a insónia nas trevas.
Pela madrugada estiquei os tendões adormecidos e tacteei o vazio com os olhos, antes que a luz nascesse.

Sunday, September 16, 2007

a linguagem das pedras em tempo de memórias

Roma

estavas inscrito nas pedras, à superfície
de um tempo que passou e se passou
marca cravada nos capitéis do pensamento
mesmo ao longe, noutra latitude,
nos ângulos de outros frisos
nos restos de outras realidades.

senti ainda a tua ausência no que restou
do labirinto das crenças
nos fragmentos subterrâneos,
na triangulação quebrada das fachadas
nas praças povoadas de mitos
e nas águas que os deuses faziam jorrar para dentro das fontes.



Saturday, September 15, 2007

Os livros


A maria_arvore sugeriu-me a selecção dos 10 livros que ajudaram a estruturar esta que hoje sou.

Antes de os enumerar tenho de dizer uma coisa que não é exclusiva do meu sentir: os livros marcam-nos consoante a idade que tínhamos quando os lemos, havendo alguns relativamente aos quais nos perguntamos, uns anos depois, "como foi possível que eu tivesse lido aquilo"? Por outro lado, deve ser difícil a cada um de nós eleger apenas dez...

Aqui vão aqueles de que mais me lembro...

1. A Náusea, de J. P. Sartre, lida por volta dos 14-15 anos, quando me perseguiam as primeiras crises existenciais, ainda antes de certos pensamentos terem nome;
2. A um Deus desconhecido, de J. Steinbeck, pela mesma altura, quando procurava desesperadamente entender a crença e incorporá-la;
3. O Doutor Jivago, de B. Pasternak, há muitos anos, porque já me interessava pela História mas sobretudo pela surpreendente entrada no labirinto dos sentimentos;
4. Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, numa altura em que ainda não sabia que o neo realismo era literatura datada; apenas lhe sentia o gosto, acompanhado pelo sentimento de revolta;
5. As Brumas de Avalon, de M. Zimmer Bradley, a alimentar-me as fantasias...
6. O Nome da Rosa, de Umberto Eco, em leitura compulsiva, num fim de semana em que até me esqueci dos filhos...
7. A Obra ao Negro, de M. Yourcenar, como testemunho exímio de uma época, escrito com o coração e com o saber de uma das melhores escritoras de todos os tempos;
8. Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, numa feliz descoberta de uma poderosa arte irónica;
9. A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, construção ficcional perfeita, o romance dentro do romance e a vida vista por dentro e por fora, com a inversão de todas as regras como caminho necessário à escrita de uma obra-prima; e depois também O Cais das Merendas, O dia dos Prodígios, O Vale da Paixão e mais recentemente Combateremos a Sombra. Escrita indispensável ao meu crescimento literário; mas também visão crua, farpa infalível cravada na realidade que não escapa aos olhos e ao coração.
10. A Casa e o cheiro dos Livros, de Maria do Rosário Pedreira, poesia para ler a toda a hora;
... e todos os livros daquela poesia que me enche a alma...


... e agora? Onde ponho os Eças, particularmente Os Maias e A correspodência de Fradique Mendes, numa analogia perfeita com os nossos dias. E o Fernando Pessoa? E os outros?


E agora passo o desafio a todos os que gostam de livros...


Wednesday, September 12, 2007

Cheiro a terra molhada


Esta tarde vieram as chuvas.

Sob os candeeiros da rua deslizaram riscos molhados
Trazendo uma frescura branda ao fim do dia

Nos jardins as corolas ficaram mais viçosas
E da terra soltou-se o cheiro mágico das palavras maduras

Não sei se viste que pus flores nas jarras
E sementes de pétalas no canteiro da estação que se avizinha.



Thursday, September 06, 2007

Regresso


Estou de regresso.
Voltei, devagarinho, como num fim de tarde se regressa da beira-mar e se toma um duche fresco.
Trago as marcas do sol no sal da pele e nos pés o ritmo bom das caminhadas.
Trago serenidade e palavras para escrever. Não são outras, são as mesmas; mas posso sempre trocar o lugar das sílabas e usar janelas novas. E luz, mesmo nos dias curtos que não tardam.

Wednesday, August 29, 2007

Combatendo as sombras

Roma

Antecipo agora o nascer do sol completando as sílabas
Apago também os silêncios repondo a direcção nas asas
E lavro textos sobre jardins acabados de plantar

Recuso deitar-me hirta em lençóis de marés passadas
Planto musgo fresco sobre tapetes de folhas ressequidas
E sorvo o cheiro manso da neblina sobre ruínas entretidas

Invento estações novas para ultrapassar a rapidez do tempo
Digo ao espelho que espere apenas mais um pouco

E transpareço, nua, ao som da voz que sopra nos meus olhos

Sunday, August 26, 2007

Ainda a água... nas férias

Florença

Veneza

Veneza



Thursday, August 16, 2007

Férias com água

Rio Alvoco

Barriosa

Rio Alvoco


Por agora fica o correr das águas.

As palavras virão depois. Neste momento apetece apenas contemplar.

Friday, August 10, 2007

Ufffff.... já merecia!!!


Agora sim, vou descansar uns dias.
A ausência tem sido por razões de trabalho.
Agora, finalmente... uns dias de descanso, exactamente na comemoração de dois anos de Palavras em Linha.
Daqui a dias estarei de volta para alinhar mais palavras.
Obrigada a quem passar por aqui.

Saturday, July 28, 2007

Dias definhados

Chegaram mesmo agora os dias sem poesia
Chegou a acidez do osso frágil
A vista enrugada, encovada, enevoada;
Mais a lentidão dos passos curtos
Em sapatos rasos.

Chegaram quilos a mais, agora mesmo
Chegou a letargia do desejo
As mãos atrapalhadas, presas, ressequidas;
Mais a lentidão das ideias quebradiças
E mal articuladas.


Devia ser possível recusar o invólucro enrugado
Ou recuar sobre as pernas definhadas.

Wednesday, July 25, 2007

Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo


O difícil é saber quando é cedo ou quando é tarde
Normalmente a estrutura já nos esmagou antes do acordar
Sabendo-se que o sono nunca é mais do que o refúgio.

Cansamo-nos vezes de mais para ser cedo
Mas a tarde apenas fecha o dia
Quando a manhã se perde num desejo que foi ontem

Tudo inútil como um trapo velho
E ainda assim conservado, não vá um dia fazer falta.
Tudo em falta, hoje, tendo o ontem ficado atrás do sonho

Nunca se sabe se foi cedo ou se foi tarde
E o pior de tudo é deixar-se em branco o espaço do ponto final
E vê-lo sempre passar para a outra página.



Tuesday, July 24, 2007

Brindemos à escola do futuro

(clicar na imagem)


Ainda não sei muito bem como é que vou trabalhar na sala de aula no próximo ano lectivo mas parece-me que vai haver uma grande revolução nos meus métodos de ensino e nos dos meus colegas professores.
Consta-me que vou ter um portátil na minha mesa.
Pagarei por ele 150 euros e depois, durante 36 ou 12 meses, terei um encargozito que vai depender do contrato de fidelização à TMN que eu “quiser” fazer. Nada de especial. Mas será o meu portátil, porque se o pago ele é meu.
Meu?
Mas o que farão 28 alunos dentro da sala enquanto eu faço as minhas pesquisas e selecciono imagens e explico como é que eles colocam os trabalhos feitos na plataforma interactiva?!
Bem, alguns deles – se estiverem matriculados no 10º ano e tiverem um rendimento familiar que ainda não percebi se tem de ser alto ou baixo – poderão ter também o seu portátil mas aí as coisas complicam-se, exactamente como quando se quer fazer um exercício ou trabalhar um texto e só quatro, em vinte e oito, é que trouxeram o livro o ou caderno de exercícios.
Quanto aos outros, será que farão uma invasão à minha mesa, com o respectivo alarido a acompanhar o trabalho? E que farei com o manual? Para que fim terão os pais deles gasto centenas de euros em manuais? E que farei quando passar pelas mesas deles e verificar que a maioria está “agarrada” ao “Messenger” ou à página do Hi5?
Ok, eu sei que todas as transições são assim, mas caramba, já ando em transições há tantos anos e os resultados a que tenho assistido não são lá de grande sucesso!
Bem sei que a formação na área das Tecnologias da Informação e Comunicação é a coisa mais importante do mundo e arredores neste momento; reconheço-lhes as vantagens.
Porém, o que falta para tudo isto fazer sentido é qualquer coisa que não sei explicar muito bem, mas deve ter a ver com um estrutura que não vejo, uma organização que não descortino, uma maneira de fazer as coisas sem que as empresas envolvidas corressem antes de tudo para o lucro pessoal, marimbando-se para os resultados que os meninos vierem a ter – quanto mais acríticos forem os futuros cidadãos melhor, desde que dominem as TIC – e para aquilo que os pedagogos agora chamam pomposamente as competências da aprendizagem, expressão que eu escrevi demasiadas vezes no ano lectivo que terminou, em documentos e formulários que enchem os dossiês nas prateleiras da minha escola.

Certamente terei mais umas grelhas para preencher com os dados relativos ao domínio das técnicas de pesquisa na net, à capacidade de seleccionar informação, à velocidade com que tecla, ao domínio do uso do corrector ortográfico… tudo isso e mais ainda, se houver tempo, umas coisitas relativas à formação de Portugal ou à bipolarização do mundo nos anos 50 ou mesmo à formação da União Europeia, já que é nisso que estamos metidos embora sem grande capacidade para fazermos face a todas as coisas da moda.


Sunday, July 15, 2007

No 52 já ninguém mora




A sugestão veio daqui.

A inspiração veio dali.


Quando por lá passo afasto os passos, como se me fosse ainda penoso espreitar os dias. Piores as noites, não as primeiras porque dessas ficaram raios de sol e búzios a murmurar segredos ao ouvido. Segredos bons, segredos do prazer aprendido a dois, rendição ao amor descoberto nos gestos novos, nos arrepios da pele sob os lábios inflamados, no gemer contido ainda pela estranheza do sentir.
Quando por lá passo preferia não passar. Não fosse este apelo dos passos a conduzir-me direita ao lugar de todas as coisas e eu fugia, escapava-me por entre a maré de memórias misturadas em azul e negro, os olhos baços perante as luzes intermitentes e ele a pedir-me perdão; e a ter de ir, de mãos presas e olhar assustado.
Nada fazia sentido. Nada faz ainda sentido a não ser a impossibilidade da casa ser lar.
Agora passo ao largo como se espreitasse não os búzios mas as pedras, as dores do frio das pedras a entranhar-se na memória. Passo de passos largos, a fugir de um aroma que se fez passado, a lembrar o dia em que o levaram dos meus braços; e as lágrimas em silêncio num pedido de desculpa surdo e côncavo.
No 52 já ninguém mora. Lá dentro, aprisionado pela tranca, ficou o amor. Não sei se resistirá ao mofo e ao silêncio.

Wednesday, July 11, 2007

Variações sobre águas espelhadas


Cada olhar tem uma dimensão própria, diversa, distinta; e nem sempre é o mesmo, o percurso que vai do olhar ao ver.

Mal seria se todos olhássemos as coisas pelo mesmo ângulo; certamente um sinal estático de estarmos aqui pelo facto de nos terem posto neste lugar colectivo.

O meu lugar é um lugar comum: o lugar dos olhos; lugar de coisas visíveis e de outras que são reflexos; ou reflexões; ou representações.

Mas nem sempre os reflexos do lado de dentro passam pelo semear das letras e nem sempre a sementeira faz germinar aquilo que não chegou a ser lançado à terra.

Tudo está, pois, no lançar dos olhos, havendo os que vêem melhor pelo lado de dentro; e os que não vendo, escutam os ecos; e ainda os que ficam a olhar as águas.

Às vezes o olhar dilui-se, espelhando a espera.

Tuesday, July 10, 2007

águas que são espelhos


Fiquei assim a olhar o cair da água, ao ritmo dela,
regato cadenciado na transparência dos modos
e eu ali infiltrando-me no direito de estar por conta e risco;


Risco os dias e não sei de outras fontes,
de outras águas, de outros espelhos…


Sunday, July 01, 2007

(des)agasalho

Fotografia de Aguarelas de Turner

Vesti um agasalho quando os dias eram frios.
Não, não mo deram a vestir; era meu da raiz ao topo porque o fiz nascer de dentro da terra e nele me envolvi, preparando-me para ver passar as estações.
Agasalhada, ergui-me robusta, na vertical; depois lancei braços e disse ao céu que o azul era pouco. Lá onde chegavam ao fim as minhas folhas era como se um sorriso se soltasse de cada dedo; e cada dedo agarrasse o infinito.
Entretanto o chão floriu à minha volta e era ao verde que me rendia todas as manhãs, depois do canto das aves ter cessado na placidez de cada entardecer.

E assim foi passando o tempo; digo-o agora, à distância; antes não o disse ou não dei por ele, de tão aconchegada na justeza da roupa; agora tenho frio.

Que sucedeu à capa com que me cobri?
Que frio é este, tão súbito, tão devasso, tão intenso?

São farrapos, estes restos de roupa velha.
Mas é estranho que tudo esteja ainda verde e eu gelada.

Dizem que por baixo há pele nova e que eu serei outra vez senhora do meu corpo.

Tenho frio.

Thursday, June 28, 2007

Suspirando...


Raramente usei este espaço como lugar de contestação social ou de qualquer outra natureza. Talvez o tenha feito uma ou outra vez, desabafando queixumes relativos à minha actividade de professora e ao desagrado que em certos dias isso me causou (não, não é verdade que tenha deixado de gostar do que faço, mas há uns dias piores que outros, como na vida de todos os profissionais).
A personagem que criei para escrever aqui é demasiado virada para dentro para se interessar pelas coisas que movem o jornalismo, que se vai fazendo ao sabor daquilo que é mais mediático e, como tal, que pode render mais às empresas de comunicação e difusão.
Porém, eu interesso-me. Mas não preciso de criar nenhum outro espaço para o efeito. Estou a usar este, exactamente hoje, depois de ter estado sentada diante da televisão a ver as notícias do país e do mundo.
E o que vi e ouvi assustou-me:
As leis do trabalho estão a mudar de uma maneira estranha. Para quem o tem, claro!
O Ensino Superior tem, a partir de hoje, novas regras (bastou a aprovação da maioria, claro). Teremos empresas de ensino a formar os futuros alunos.
Uma directora de serviço foi hoje demitida do seu cargo por não ter retirado um cartaz jocoso a propósito de declarações do ministro da saúde. Antes, como se lembram, tinha sido um professor, destacado numa Direcção Regional.
Depois há ainda o caso Portugal Profundo - take 2 - tendo António Balbino Caldeira sido ouvido hoje em tribunal a propósito de umas coisas que escreveu. Mas já tinha havido o take 1 - há uns tempos, por causa de outras coisas escritas, nessa altura a propósito do (quase) esquecido caso Casa Pia. Segundo o próprio, quatro anos de blog deram origem a quatro processos.

Então, quando me preparava para dar voz à Elipse, à espera que saísse um dos seus textos poéticos, fiquei assim...

Wednesday, June 20, 2007

A não perder...

Músicas sobre Água - Vitor A. Ribeiro
em exposição aqui

Há uma melodia paralela aos teus pés descalços, uma música sobre as águas da maré baixa que te faz voar à minha volta e me encanta os dedos nas cordas …

Há uma melodia paralela ao teu recorte, uma música que me faz encantar-te os dedos e os olhos que prendes ao voo dos meus pés descalços sobre as águas da maré baixa…

Há harmonia nesta cumplicidade paralela à música; e há a tua figura esguia sobre as águas da maré baixa enquanto vibram as cordas e eu acompanho o teu voo com os meus olhos rendidos…

Há cumplicidade no render dos teus olhos; e há o desenho harmonioso das tuas mãos na música do meu vestido que ondula ao som do teu voo enquanto os meus pés dançam...



O que me inspirou?

Esta pintura - óleo sobre tela - exposta no Reservatório da Patriarcal, à Praça do Príncipe Real.
O autor é Vitor A. Ribeiro e vale a pena visitar a mostra, que estará lá até 31 de Julho.

Tuesday, June 12, 2007

Retrospectivamente



Antecipei sempre os poentes nas colunas do horizonte
Quebrei todas as sílabas silenciando as agonias
E deixei arrastar as águas dos Invernos
Sobre mortalhas de vida presa ao compromisso.

Aliviei com silêncios o rancor dos elementos
Cortei com a navalha a ponta incendiada das asas
E escrevi textos e textos no lavrar do medo
Sobre jardins plantados em marés futuras.

Aceitei o gelo dos areais por temer a oscilação das dunas
Enquanto me deitava hirta dentro da escuridão
E plantei musgo anunciando a Primavera
Sobre as farpas agudas de todos os argumentos.

Recolho agora da neblina o cheiro a véus translúcidos
Feitos espelhos de memórias e gestos por dizer
E deixo arrastar as águas de todas as estações
Sobre o imenso charco das pedras calcinadas.

Saturday, June 09, 2007

... à espera


Sabias, se me escutasses, que aguardo o verão com a ansiedade do guerreiro na hora da batalha ou o desassossego da adolescente antes do grande encontro; como se tivesse estado de joelhos, durante toda a noite, atenta ao murmúrio do oráculo e fosse agora o momento de desvendar o enigma.

Sabias, se me adivinhasses, de uma existência mais do que escrita nas folhas de um caderno ou de um palavrear de insatisfação em linhas curvas; como se as palavras fossem eu e quisessem vida depois de anos amarradas aos cabelos da esfinge, exposto agora o desejo à nudez do amanhecer.

Sabias, se me visses, do viço dos rebentos em vésperas da floração, ou da energia de uma estrela mal pousada no espaço, a querer abraçar a terra; como se o romance não tivesse ainda começado mas o seu halo já pairasse por cima da pose inquieta e do fogo a arder nos lábios.


Thursday, June 07, 2007

olhos de ver camomilas



Dá-me, menina, os teus olhos
que os meus ficaram fechados
no lado de lá do tempo

e dá-me a cor dos teus passos
nas escadas do futuro

e a força viva que trazes
agarrada aos pensamentos

e mais a garra que imprimes
à paleta dos teus sonhos

dá-me, menina, o sentido
de sentir-te menos triste
depois dos dias cinzentos




Tuesday, May 29, 2007

Não estejas triste...


Não estejas triste, a vida não parou para ninguém
Ou antes, vive a tristeza por um dia e depois canta
Vês lá ao fundo o rio?
Ele tem margens e vai revolvendo o lodo velho
E, tu sabes, o mar que te espera é muito grande.

Eu também morri uma vez nas paredes de uma casa
E balancei-me depois num barco à deriva
Lembras-te dos tombos?
Amanhã não haverá mais vento a fustigar-te o rosto
Pelo menos a nortada vai aliviar. Tu sabes.

Saturday, May 26, 2007

pálpebras pesadas

quando eu nasci
escreveram-me nas pálpebras

um conjunto inteiro de mentiras
e devem ter-me dito

para não pestanejar

às vezes, à noite,
quando tento manter abertos os olhos
com medo da verdade
há uma montanha

pousada em cada pálpebra

e eu resisto
olhando a floração das madressilvas;
se fecho os olhos
vai-se o viço tenro das guias

que hão-de fazer-se troncos




Saturday, May 19, 2007

... o princípio da história

Ela e ele lançaram o desafio. Depois, aqui, enviaram-no directamente para mim. E eu respondi...

... mas para isso fui buscar ao arquivo este texto antigo, que pode servir de começo de uma história.

Tudo isto para dar continuidade a uma criação - O Livro dos Bons Princípios.


Tamara de Lempicka

Do que ele tinha medo era do poço das palavras dela. Não queria escutá-la por muito tempo por isso replicava e contrapunha, percebendo que precisava do confronto para não lhe dar espaço. Sabia que ganhava nos argumentos, treinados desde o berço ou desde a definição dos genes. Habituou-se, pois, a ficar à tona, mas temia-lhe a dimensão do olhar mesmo em silêncio. Nunca se questionou se fugia, mas não devia ser de fuga o seu investimento pois sabia-se empreendedor e adaptável, obstinado nas metas.

Ela habituou-se a calar as respostas, fechada no desagrado até se diminuir no espaço. Enleava-se numa pequenez quase assumida, mas só por fora ou só para fora, segura que estava da sua solidez feita sobranceria. Mas disfarçada. Podia ser a sua forma de agressão, o seu ataque mudo. Ou a sua maneira de inventar o desafio do amor encaixando-o na figura ali presente. Ou uma forma de amor tornada posse, ou certeza de permanência na interacção da discórdia.Na cama fingia dormir, enquanto ele soprava o desespero. Dizia que o amava.

Atenta às variações confessadas do amor, tentei saber de que era feito esse sentimento que parecia um afecto envenenado. Percebi então que o medo é construtivo: temia o abandono e por isso abandonava, querendo possuir. Antes da ausência imposta já ela não estava lá, sendo a primeira a desobrigar-se. Construção estranha mas funcional, pelo menos enquanto o hábito não se tornou insuportável ao mecanismo do convívio diário. A verdade é que todos os hábitos enfermam desta mesma característica, mesmo quando as variações do amor são estáveis.

antes da madrugada


antes da madrugada

os pássaros adormecem

e os morcegos

assustados

atiram-se contra as paredes brancas

deslizando

devagarinho

até ao chão.

Wednesday, May 16, 2007

é durante a madrugada que as folhas crescem


Já de madrugada vieram os pássaros em chilreios de despertar
Enquanto o sol se levantava e os olhos estranhavam a luz
Estava distraída a plantar uma tília
Com os dedos envolvidos no prazer da terra
E os sentidos todos concentrados na esperança de a ver crescer;

Para lá da porta conseguia ver-se o verão incendiando as planícies
Lume a fustigar a calma, fogo, ânsia, ave desabrida

Ouvi depois dizer que é devagar que as folhas desabrocham
Embora a esperança se converta em pressa
E queira ultrapassar o fim dos labirintos.

Wednesday, May 09, 2007

pormenores


pontas de fogo em caules frágeis dia-sim-dia-não
pode ser pouco
mas quando o tempo cai sobre as vontades esmagadas
(des)arruma-se a vida
e ofende-se com a esperança dos olhos,
o brilho,
à superfície das águas;

por estes dias vi (des)focar-se a paisagem
e, debruçada sobre mim,
desenhei a vermelho um sol sobre os riscos das feridas.

Sunday, May 06, 2007

ligações difíceis

roubei a fotografia ao pé de meia


prendo as mãos na esperança
finco as unhas, despedaço-as nas ranhuras da pedra
o corpo teima, o corpo pesa;

cravo os olhos no céu, sem prece que ampare a subida
eu e a parede, ambas rudes no desejo
eu teimo, ela resiste;

entro no diálogo difícil dos elementos
sou parte da parte
e o todo escorrega-me nas mãos.
a pedra fica. não há dualidade.
desisto.

Saturday, May 05, 2007

se eu fosse...


A Ivamarle desafiou-me a revelar um pouco de mim:


Se eu fosse uma hora do dia, seria ... a madrugada
Se eu fosse um astro, seria ... uma estrela muito distante
Se eu fosse uma direcção, seria...o caminho bifurcado
Se eu fosse um móvel, seria ... uma secretária desarrumada
Se eu fosse um liquido, seria ... água do mar
Se eu fosse um pecado, seria ... a ira
Se eu fosse uma pedra, seria ... pedra de lioz
Se eu fosse uma árvore, seria ... um salgueiro
Se eu fosse uma fruta, seria ... um cacho de uvas
Se eu fosse uma flor, seria ... um narciso
Se eu fosse um clima, seria ... polar
Se eu fosse um instrumento musical, seria ... um piano
Se eu fosse um elemento, seria ... ar
Se eu fosse uma cor, seria ... verde
Se eu fosse um animal, seria ... uma garça
Se eu fosse um som, seria ... o vento (às vezes brisa, às vezes temporal)
Se eu fosse música, seria ... uma balada
Se eu fosse estilo musical, seria … clássica
Se eu fosse um sentimento, seria ... sensibilidade
Se eu fosse um livro, seria ... A Náusea
Se eu fosse uma comida, seria ... um gelado a derreter no prato
Se eu fosse um lugar, seria ... uma praia
Se eu fosse um gosto, seria ... agridoce
Se eu fosse um cheiro, seria ... lilás
Se eu fosse uma palavra, seria ... memória
Se eu fosse um verbo, seria ... aprender
Se eu fosse um objecto, seria ... um livro
Se eu fosse peça de roupa, seria ... uma écharpe
Se eu fosse parte do corpo, seria ... o cérebro
Se eu fosse expressão facial, seria ... a surpresa
Se eu fosse personagem de desenho animado, seria … ???
Se eu fosse filme, seria ... Magnólia
Se eu fosse forma, seria ... elíptica
Se eu fosse número, seria ... 5
Se eu fosse estação, seria ... primavera
Se eu fosse uma frase, seria ... todas as frases são fragmentos; eu quero as palavras todas



Sunday, April 29, 2007

narrativas com asas. ou apenas símbolos

René Magritte

E não saí das páginas…
Espalmada nelas converti-me em tempo narrativo, encolhida no espaço das histórias que ficam por contar.
Arredondei-me no volume das personagens e na gramática dos monólogos surdos.
Diálogos, sonhava-os, mas era se soubesse com que palavras se constrói a trama das histórias felizes.
Nos arabescos das aves podia estar o código por desvendar se não tivesse a certeza de que tudo é simbologia.
Heróis? Só nas histórias antigas, dentro dos livros de fadas; mas os episódios são sempre interrompidos pela focalização em outras realidades, as cruas, aquelas que não têm sequência narrativa, por mais que se queira aligeirar o desenlace.
E a acção tem um nome que é sempre o nome de outro nome; às vezes promessa sob um nome, sob a palavra que se pronuncia. Como se tudo tivesse um rosto visível e outro escondido. Pronuncia-se amor e é hábito que se diz. Diz-se o nome à espera que ele se converta na imagem de desejo.
E o que se deseja? Que o rosto visível das coisas seja a satisfação do desejo oculto.
Diz-se Primavera aguardando flores e pássaros na paisagem; e se as pétalas voam fica-se sem saber se eram as aves ou se era apenas o cheiro a rosas, sem as rosas. Figuração.
Um nome é sempre um nome de outro nome: se digo “eu” posso estar a anular a existência porque é do outro que falo; hábito de dizer e deixar escondido o que não ousa ser dito ou sequer pensado. Todo o pensamento ultrapassa a competência narrativa.
E no entanto há um desconforto no pensar, um subtítulo mal enunciado em cada coisa.

Friday, April 27, 2007

Leituras


Gosto da maneira como ela diz “devíamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento”.
Não li tudo ainda, mas a qualidade do registo é a mesma que me cativou desde o primeiro romance e o assunto é melindroso, como são melindrosos todos os assuntos de que é composta a vida.
Na parede de um gabinete, em Lisboa, projecta-se a sombra de Freud e quem lá entra já não pode viver fora dali. Porque ali há alguém que “ouve como um vivo e age como um morto”. Conforto no alongar dos relatos. Conforto no tecer das grades de uma prisão feita de cumplicidade profissional. Conforto no estar ali.
Isto é o que eu leio. Provavelmente outros lerão ali as soluções e ela, a autora, deixa que sejamos nós a ler. Até porque depois do tempo passar a leitura é ainda mais difícil – tema recorrente na escrita de Lídia Jorge – e o que se recorda “não vale a casca de um pêssego” ...
Porém, é do lado de fora que tudo se passa ; é no lado de fora que as pessoas estão; e é nesse lado que se passam as histórias concretas e se vivem as vidas concretas.
No gabinete as sombras prolongam fantasias ocultas pelo pudor e facilitam as invenções oníricas: do nada para o nada (digo eu.)

Quando acabar virei dizer se é assim ou se ela me vai trocar as voltas.
Leiam também.

Thursday, April 26, 2007

recomendações


Gosto de blogues.

Aprendi o caminho para lugares de qualidade e às vezes já troco os livros pela escrita curta mas profunda, pelo humor cáustico mas fino ou pela simbologia das imagens que resultam das sensibilidades pessoais de quem visito.
Também há lugares a que não me apetece voltar; não por desprezo pelo pensamento de cada um, mas pela necessária gestão do tempo e das preferências. Há contudo, outros com os quais não me identifico.

Disseram, ela e ele e mais ela que me visitam por gosto; e eu, mesmo sabendo que há muitos outros lugares de referência e ainda outros tantos por descobrir, diariamente gosto de passar por aqui, onde a qualidade da informação e da reflexão me satisfazem; por aqui, onde a profundidade da escrita me faz pensar; por aqui, onde o sentido de humor me anima os dias; por aqui, onde a diversidade me permite aprender muitas coisas e por aqui, onde a limpidez das escolhas me leva a caminhos novos.


Wednesday, April 25, 2007

Conta como foi

O que mais me custa, passados 33 anos, é o distanciamento a que vamos ficando dos acontecimentos.
Os mais novos podem sempre dizer que foi assim, mas não estiveram lá.
Sim, é o passar do tempo e toda a História se faz de relatos; mas os factos são manipuláveis, dependendo da intenção ou até da emoção de quem o faz.
Para mim, há uma verdade. Aquela que testemunhei porque estava perto. E... dar vivas à Liberdade fazia tanto sentido!
Por mais que tente não consigo explicar aos mais novos o que era viver sem ela. Não há termo de comparação para eles...





Sunday, April 22, 2007

olhos acesos em páginas por escrever




estava sentada entre as páginas quando chegaste;
tremia sem temer mas o sorriso era ainda inverso à proporção da espera.
trazias a paz nas sílabas e nas mãos organza, algodão doce, linho festivo e música.
as aves esvoaçaram e fizeram arabescos no azul;
o tempo limitou-lhes o voo e vi que descansaram à beira mar antes da partida.
há detalhes que convém omitir, contudo, não vão as imagens ferir-se nos espelhos.
vou deixar ficar os olhos acesos, só os olhos.

arcas velhas

subitamente dei comigo a olhar a arca onde guardei
dobrada
a alegria;
já me tinha incomodado o cheiro a mofo
mas pensava que era do preto dos vestidos
atirados
desdenhosamente
num dia de mãos aliviadas.

lembro-me que também lá pus
a esperança
com medo de a usar em demasia.

devia levantar-lhe a tampa,
suprimir o peso sobre as camadas dispostas no interior

mas tenho medo de mexer nas traças.

Thursday, April 19, 2007

projectos

primeiro deseja-se ter, depois deseja-se ser;
não há regras que normalizem a mente; só talvez quando se tem o necessário ou quando se sobe o patamar do desprendimento.

houve dias, antes do conforto, em que desejei apenas amoras silvestres, depois a compota, depois a prateleira, depois a parede… depois a casa;

os desejos crescem à medida da ambição ou também podem diminuir com ela, é sempre duvidosa a proporcionalidade das coisas; e os projectos são sempre tridimensionais, se não desejarmos também a serenidade.
imagem daqui

Monday, April 16, 2007

O carro do sol



o sol nasce cedo e eu acordo
depois as horas passam

depois começa a ser noite e o dia finda
hoje igual a ontem

amanhã igual a hoje
mesmo que as palavras sejam outras
ou os gestos possam ter a novidade da diferença.

tenho pena de já ter passado tanto tempo.
e o mar ali tão perto, a ficar para sempre
mesmo quando eu não estiver aqui.

invejo a permanência das coisas como se a culpa fosse delas
é duro saber que tudo fica…



Wednesday, April 11, 2007

Mitos fundadores 5.

Dédalo e Ícaro



O sol é ambição, não deves.
Mas é desafio…
As asas são frágeis. Não arrisques.
Mas tenho de ir…
A aventura não compensa. Eu sei.
Mas eu tenho de saber…




Tuesday, April 10, 2007

Mitos fundadores 4.

Atena
(com a gentil colaboração do pirata-vermelho)


Eis que a maga Atenas
em quebrantos, denodada

apela ao vento Eolo
por um manto

para tapar Métis,
a mal amada

Não vá o fauno olímpico tecê-las
e

de maduras
a ambas
mordê-las.


Monday, April 09, 2007

Mitos fundadores 3.

Dionísio
( Baco, para os romanos)

fantasiam-se as festas
na embriagez da primavera

celebra-se a divindade do êxtase

em danças fecundas
sobre a terra adormecida.



Saturday, April 07, 2007

Mitos fundadores 2.

Prometeu

Heinrich Füger


O fogo queima as mãos aventureiras
lá onde os deuses mandam.

A vida pela luz.

e depois a razão predadora
como paga.


Friday, April 06, 2007

Mitos fundadores 1.

Zeus e Hera
imagem daqui

Diz-me em silêncio que o poder não sou eu mas tu.
Digo-te em silêncio o desejo da mulher;
Deita-te comigo e faz-me adormecer em ti.
Deito-me contigo e faremos nascer o mundo;
Deixa o teu perfume marcado na minha cama se fores embora.
O meu perfume será o alvorecer do universo. E eu fico.




Sunday, April 01, 2007

pedras com flores dentro


Desabrocham vivas as vontades
Nascem da pedraria
Em dias de chilreios com vento a favor
A luz chega cedo e não há noite que adormeça a determinação.




Wednesday, March 28, 2007

pintar o mar nos olhos


não há noites que cheguem para o espanto de te ter
em vez do nada que era o dia repetido ao fim da tarde;


os lençóis de linho estavam gastos pela espera
enrolada à solidão; enquanto o sono tardava
dentro das janelas eu desenhava um rosto
linha a linha; o livro estava aberto e aguardava
palavras escritas a tinta fresca.


demasiada fantasia, digo agora;
o contorno dos meus olhos
aceitando o mar dos teus.







Monday, March 26, 2007

(in)decisões


Não sei de que cor são as palavras

Quando se escondem, miúdas, inquietas
Nos abrigos mais castos das montanhas


E eu à espera do dia para subir




Não sei de que sol são as estrelas

Acenando celestes, espelhadas
Nos sonhos apagados pelo medo


E eu olhando o mar sem ousadia



Não sei de passos grandes que me levem

ou velas de partida ou asas calmas


se fico luto em vão…


se parto… perco...


Friday, March 23, 2007

Histórias 6.

Bosch

Havia dias em que lhe vinha frio dos olhos; e dias em que o olhar trazia qualquer coisa de perverso, uma coisa incomodativa ao mesmo tempo idiota mas orgástica.
Tinha só dezasseis anos mas transportava ódios velhos, como se nele coubessem troncos de árvores centenárias, firmes, enraizados na tragédia. Ou foi assim que o vi depois, porque no princípio fincou-se no meu sentir maternal a necessidade de o proteger, estranha necessidade que ao mesmo tempo causava repulsa porque ele queria aninhar-se sem precisar de aconchego; queria proximidade sem desejar o calor das palavras; queria respostas para perguntas maduras e parecia já saber o caminho antes de se aperceber da dimensão das portas.
Estranha criatura que se encolhia às agressões vindas do feminino, embora lhes atirasse palavreado clandestino e nunca confessado.
Soube que fora violentado nos primeiros anos da infância; uma história contada depois, sem o rigor do esclarecimento e com manchas escuras pelo meio. Não que ele ma tivesse contado, não! O mundo em que se imaginava era tão perfeito que nada de mal lá cabia, nem as pancadas que lhe deixaram nos olhos a indiferença, nem as palavras que o silenciaram para os outros, sabendo-se que elas fervilhavam estranhas, contidas, obscenas, malvadas, frias.
Disse-me que os deficientes não deviam viver, que os pretos não deviam estar na sua terra, que os feios deviam ser separados num mundo à parte. Quis confessar na escrita a cor negra do seu lado de dentro, não se preocupando sequer em lhe acrescentar as cores da dissimulação. As cores, pintava-as nas bonecas que desenhava, sempre as mesmas, mulheres standartizadas, personagens com funções masculinas e olhar arredondado
Não sei se precisa de ajuda. Não há bigorna que dobre um ferro colocado sobre o gelo.
A inteligência vai comandar a sua vida e o sentido hedonista que a infância lhe despertou, à custa de uma suspeitosa ausência de regras e valores, há-de levá-lo a cometer aquilo a que os seres normais chamarão atrocidades.
A imagem que me angustiou a noite foi a de um monstro.

Tuesday, March 20, 2007

A dimensão ecológica do Imperialismo

Polinésia


Visões novas da História velha.
É fascinante a maneira como outros olhos vêem as mesmas coisas. Não que nunca as tivéssemos pensado, não é isso! É o desenho feito com outras cores, às vezes as mesmas que costumamos usar, mas noutros esboços.
Há uma dimensão ecológica no colonialismo. A instalação dos europeus no mundo não europeu acarretou muitas e variadas catástrofes – erosão dos solos, tempestades de pó, desaparecimento de espécies animais e vegetais, introdução de outras, importação de modelos paisagísticos…
Eram paraísos as ilhas (e ainda o são, pelo menos nos mitos) e todos os lugares situados abaixo dos trópicos. Lugares semelhantes a um qualquer Éden onde se encontrava o sossego mas também a possibilidade de pôr em prática a exploração capitalista, fosse de um cultivo rentável, fosse da rentabilização da actividade turística, se quisermos aproximar-nos das ambições actuais.
A expansão imperialista vai provocar profundas alterações nos sistemas ecológicos: a introdução do cavalo nas Américas, dos coelhos na Austrália ou até das simples batatas na Europa mudou a ecologia do planeta. É claro que não foi a primeira vez que tais mudanças alteraram a ecologia à escala planetária; o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, no Neolítico, devem ter feito “estragos” maiores; porém, o ritmo de aceleração e a escala a que as mudanças ocorreram nestes últimos séculos não tem comparação possível.
Jardins decorativos cheios de plantas exóticas alimentavam o imaginário barroco e depois o romantismo, por isso a procura de novas espécies intensificou-se nos séculos XVIII e XIX: Cook e Bougainville viajam nessa busca e o espaço sub-tropical é devastado, como o são as vidas dos seus habitantes.
A História cultural da Natureza é tão significante como a História ecológica da cultura.
História ambiental? Pode ser que sim, que esteja a surgir uma nova área de estudos. Pelo menos trata-se de um campo de estudos interdisciplinares que envolve as relações entre cultura, tecnologia e natureza.



Os Impérios 2.

D. Manuel I

Tudo começa com a instalação dos países ibéricos nas ilhas atlânticas, no século XIV.
A partir daí a Europa achou que tudo lhe era possível. Progressivamente a extensão do sistema global faz com que os europeus acreditem que não há fronteiras para o comércio, primeiro, e para a instalação política, depois.
Primeiro são as ilhas desabitadas; depois as terras dos outros que vêem sair de barcos com asas os deuses brancos, ameaça que os antepassados previram e anunciaram. As armas favoreceram o domínio e a partir daí assistimos à marginalização, à escravatura e depois à extinção das pequenas culturas indígenas. Desde as florestas às espécies animais, passando inevitavelmente pelos homens, o domínio europeu impôs-se destruindo mais do que construindo. Ou se alguma coisa construíram foi sempre em prol dos seus interesses “civilizacionais”.
No Oriente, porém, a imposição era menos fácil. Quando muito havia a possibilidade de domínio dos circuitos comerciais, com a chegada da pimenta à Europa, via rota do Cabo, a preços mais baixos e o consequente desvio dos centros económicos das republicas italianas para Lisboa.
Mas isto foi só o começo.
Muitos Impérios se constituíram depois disso como se o modelo romano herdado pudesse ser retomado e continuado.
D. Manuel intitulava-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia.
Dos Algarves, sim, que eram as terras do ocidente andaluz (al garb al andaluz); d'aquém e d'além mar também, porque Ceuta e as outras praças marroquinas podiam ser o começo do alargamento da terra e da fé (é difícil de estabelecer uma ordem entre elas); senhor do comércio e navegação era desejo de um rei “venturoso” que mandou para o Índico as embarcações que iriam estabelecer o nosso domínio sobre as rotas muçulmanas. Engano de quem governava com os olhos no Tejo, mas ainda assim sem ter saído a barra. Megalomania condizente com a pequenez amaldiçoada…

Sunday, March 18, 2007

Brighton














Wednesday, March 14, 2007

Os Impérios 1.


Estou de partida mesmo.
Por uns dias.

Vamos falar de Impérios, em Brighton.

Depois conto...

Monday, March 12, 2007

des-pe(r)dida

entrego a vida
entrego o laço
des-en-laço
des-ocupo o espaço
estou de partida
aterro, des-abraço
des-embaraço
abrando o passo
não espero
não te espero
des-enleio a vida





Saturday, March 10, 2007

5. a razão

Koré - Grécia Antiga






não lhe chega ter prescindido do riso leve e solto, não lhe chega ter guardado a espontaneidade dos gestos, não lhe chega a reclusão do corpo; quer mais de mim, a razão.
diz que contrair os lábios é teimosia que sai do sentimento; vai ao lugar do esconderijo e diz aos gestos que não há nobreza no esforço se eles se encolhem no lado de dentro do mármore; impõe-me o olhar directo ao sol e diz que é necessário resistir.
concedo-lhe o poder de me comandar os passos.
estou nas suas mãos. diz que não é suficiente.
exige que entregue a vida.

Wednesday, March 07, 2007

4. diferenças






conjugámos juntos o verbo desmoronar, embora em tempos diferentes e nunca da mesma maneira; há olhos que vêem primeiro as ruínas e demoram a limpar o pó que os turva; há outros que levantam paredes sobre o nada e abrem janelas para paisagens não supostas. preferia ter sabido antever o termo, fechando a página no tempo certo; há coisas que nos escapam por excesso de sentimento; ou de camuflagem.
também olhámos as águas a partir do mesmo lugar e se uns olhos alcançavam as ondas os outros fixavam-se no areal à procura do reverberar do sol. não era uma simples questão de pontos de vista; era a diferença.

Sunday, March 04, 2007

Sobre a globalização

imagem daqui


Comentário promovido a post


A preponderância de modelos e a sua transposição, às vezes cega, para outras culturas, não será também resultado de uma, quase íntrinseca, falha narcísica?


Saturday, March 03, 2007

Globalização

imagem daqui

O corpo é o lugar onde antropólogos e historiadores registaram maior influência do estabelecimento de modelos “globais”, podendo dizer-se que o crescimento das manufacturas na Europa Ocidental, a partir do século XIX, é o imperativo económico que comanda esta uniformização
A mudança nos hábitos do corpo leva a que rapidamente tenhamos os funcionários japoneses do regime Meiji (1894) vestidos à maneira Ocidental, para que a integração nos imperialismos seja perfeita. Porém, o uso do fato passou a trazer também a uniformização dos procedimentos burocráticos e uma marca interna de confiança e respeitabilidade associada ao modelo.
É nesta altura que o uso do relógio se estende a toda a Europa e respectivas colónias possibilitando uma standartização do tempo. Até as cidades indianas começam a ter grandes torres com relógios que regulamentavam o tempo e o ritmo do trabalho e dos negócios.
São ligações multilaterais as que se estabelecem desde que a Europa inicia o seu processo expansionista, no século XVI e isto a que hoje chamamos globalização não é de agora.
Desportos como o football, o rugby e o cricket são levados da Europa para o resto do mundo e da Ásia vêm para o mundo ocidental o pólo e o hockey; os padrões de cozinha, a etiqueta e a diplomacia política partem da França; do mundo Germânico são os conceitos de ordem bem como o conhecimento científico e humanístico.
Depois os jornais fazem o resto: de cerca de 3168 jornais em 1828 passa-se a cerca de 31026 em 1900. E também o telégrafo, que liga em 1863 a Europa à Ásia e em 1866 ao outro lado do Atlântico.
Tomika Te Mutu, o chefe Maori da tribo Ngaiterangi, da Nova Zelândia, deixa-se retratar vestido de fato e gravata, o que contrasta significativamente com as tatuagens que lhe cobrem todo o rosto e as penas que ostenta na farta cabeleira.

De que se fala, então, quando se fala de globalização?


Estou a ler Christopher Bayly, The birth of the Modern World, London, Blackwell, 2004


Thursday, March 01, 2007

o estado absoluto

Não, não vou outra vez queixar-me do meu dia-a-dia de professora. Andamos fartos de queixas e não é por aí que vamos mais longe. Afinal todos nos queixamos um pouco do trabalho que fazemos, neste país que em vez de nos incentivar só nos desvaloriza e nos impede a realização profissional.
Venho apenas dizer que é muito mau que os profissionais portugueses de qualquer área queiram e façam gosto em progredir nas suas carreiras, sejam elas quais forem, e acabem num lamaçal pouco dignificante que, imposto a partir do topo, lá onde se situam aqueles em cujas mãos deus depôs o poder, tem um único objectivo: dividir para reinar. (para não falar naqueles que querem trabalhar e só encontram portas fechadas ou naqueles que têm trabalho hoje e amanhã, à chegada, já lá não está nem o sítio!)
Era para vir falar disto com o mesmo sentido de humor que li aqui mas confesso que não fui capaz, até porque depois de um texto escrito assim não se sabe fazer melhor.
Em complemento e para não ser eu a dizer o mesmo que muitos já estão fartos de ouvir, recomendo também que ouçam esta crónica.
Não, não é corporativismo. Não me apoquenta só o meu grupo profissional.
Tudo isto é a parte de um todo que se chama estratégia, ou o que lhe quiserem chamar... estratégia para, no dizer do primeiro-ministro deste país, aumentar o desemprego em apenas quatro décimas (o melhor número dos últimos anos...), porque fechando maternidades, urgências, centros de saúde, esquadras de polícia e extinguindo serviços e postos de trabalho consegue-se, no dizer do iluminado, mais e melhor emprego, mais e melhor nível de vida.
E eu, que nos últimos cinco anos tive de ser sujeita a uma intervenção cirúrgica, tive problemas nas cordas vocais e tive filhos doentes... já não posso progredir na carreira. Aliás qualquer professor que tenha casado, que tenha tido filhos, que tenha “gozado” de três dias por morte de um familiar, que tenha estado verdadeiramente doente, como é comum acontecer pelo menos uma vez na vida de cada um, nunca deixará de ser um funcionário público menor. Com a vantagem de poder ser acompanhado a casa por um Encarregado de Educação de arma em punho.
Policiamento? Para quê? O Estado tem de diminuir a despesa... foi o que mais ouvi ontem no discurso e depois na “guerra” de palavras que encheu o Parlamento.

Tuesday, February 27, 2007

3. infância







lembro-me de quando pousava na mão o menino Jesus do presépio, guardado no cesto dos brinquedos, junto dos tachinhos e das bonecas de plástico; ficava a contemplar a figura despida colocando-me sob os poderes sagrados; lembro-me que às vezes o padre entrava na sala de aula, a meio da manhã e falava de pecados;
pecados?, não os sabia, não me pesavam; contudo a palavra foi ficando, inibindo a liberdade dos gestos em certos dias;
lembro-me de jogar ao prego na rua e de fazer covinhas para os berlindes, na terra; e de um baloiço pendurado na oliveira, à entrada a casa da avó; se me empurrassem com força chegava com os pés ao céu, mas não queria entrar no céu, só se ia para o céu quando se morria e eu tinha ainda que descobrir o que estava para além do fim da rua;
lá ao fundo havia um pinhal e tanto me intrigava o que havia depois do arvoredo; era o mundo, e eu, ansiosa, fechava os olhos; colocava na paisagem imaginada todos os restos das conversas que ouvia e tentava construi-lo a partir desses fragmentos.

Monday, February 26, 2007

2. casa






uma vez senti que ela respirava ao meu ritmo, que se entristeciam as paredes quando eu deixava deslizar as minhas costas e os braços caídos até ficar sentada nos mosaicos sem horizonte; uma vez os degraus inverteram-se e as telhas foram chão e o céu ficou à vista; uma vez senti devolver-se o grito quando o julgava abafado no canto mais distante das ruas que me levam todos os dias para me trazer de volta ao fim da tarde; uma vez fugi e levei comigo tesouros que depois devolvi ao lugar desenhado a quatro mãos, na esperança de renovar a esperança; uma vez fiquei aqui como se fosse para sempre no espaço crescente onde ressoa o eco de passos que partem;
lá fora há um jardim que floresce em cada Primavera e eu em cada Outono morro um pouco; e, no entanto, os olhos que passam detêm-se e contemplam a beleza.

Sunday, February 25, 2007

1. adolescência





deitávamo-nos sobre as ervas dos pinhais em caminhos por onde ninguém andava; prometíamos futuro entre sorrisos e mãos enleadas e os beijos eram ainda um simples roçar de lábios, de tão verdes; usávamos rimas pobres para escrever poemas de amor em cadernos alinhados ao sabor dos sonhos; era uma gramática de verbos intransitivos, a nossa; fáceis de pronunciar todas as palavras sob a frescura das copas nas tardes de verão; apetece-me comer o verde, dizia-te; e tu, sonhando ainda a um ritmo igual ao meu, sorrias e beijavas-me as mãos...

Thursday, February 22, 2007

já o sol desperta


Foi ela que forneceu a imagem e pediu um texto:


Pela calada da noite arde uma chama;
ou é pela chama que a noite se cala;
ou se deita a noite na chama, calada.
Seja como for, há sempre madrugada.
E é lá do outro lado da janela,
(já a noite finda, já o sol desperta
já a cama se cansou de estar à espera)
que o dia desponta e a esperança me engana.

Wednesday, February 21, 2007

Questões de tempo


Às vezes faltam-me as palavras; outras vezes, muitas vezes, ficam presas na garganta, à espera de voz que as pronuncie.

Sem voz é mais fácil porque elas saltam e soltam-se.

Por estes dias há uma palavra que me tem faltado – TEMPO – ou antes, não é a palavra mas o espaço para a pronunciar, sendo esse espaço uma coisa materializada na cadência dos ponteiros do relógio. É do tempo cronológico que falo. O outro, o que se mede em função de mim própria e dimensiona a minha realidade, costuma ser um fluxo continuamente instalado na memória a levar-me para trás; e depois traz-me de volta.

É essa a razão de me ter mantido entre a folhagem, relativamente escondida dos olhos alheios. Pelo menos aqui neste espaço, porque a realidade está virada de frente para mim e eu para ela. Seja então o dia um confronto.

E aqui estou articulando palavras escritas, ao som das teclas; dialogando com uma folha de papel virtual que amanhã se apresentará como real aos olhos de quem por aqui passa.

E vou, já de seguida, atrás dessa realidade que me faz fechar os olhos. Depois volto.

É claro que podia dizer apenas “até amanhã”, mas as palavras saltaram e eu não as travei.

Thursday, February 15, 2007

Palavrear



Esperava-te entre a folhagem ao entardecer
como quem espera a névoa
para entrar levemente
na fantasia das coisas perfeitas.



Tuesday, February 13, 2007

Fora de horas


Deito-me todos os dias fora de horas, mas sei que adormeço antes; talvez tenha perdido a noção da alternância entre a lucidez e a noite.
Adormeço de olhos abertos sobre a mesa onde os papéis descansam de mim. E assim fico, direita no eixo da vigília, até despertar das imagens ou dos desejos cada vez mais indefinidos, escondidos debaixo de algumas letras que repito desconexamente.
Mesmo em dias tempestuosos, transpirando sob o frio que gela a casa pelo lado de dentro, adormeço nos gestos e nos olhos ainda abertos mas sem noite que os faça descansar. As paredes são iguais todos os dias e eu, de olhos abertos sobre a mesa onde as folhas dos livros me rejeitam a vontade, forço contas de cabeça em volta de parcelas apagadas pelo tempo.
Deito-me todos os dias fora de horas e às vezes, de olhos abertos mas sem parar para pensar, dou comigo sem sentidos porque os perdi na busca de razões para que o mundo seja este girar contínuo de interesses que nunca são os que interessam, enquanto as pessoas se batem e se combatem por convicções que as viram de costas umas para as outras. E também se abatem na necessidade de confronto.
São poucas as horas do dia e é pouco o tempo para aquilo que verdadeiramente é importante, parecendo que a importância está nos argumentos da afirmação falível.
São poucos os dias em que não me deito fora de horas, fora de mim; e se o desejo permanece é porque se alimenta desta vontade de passar para além da realidade e negar aos olhos e ao entendimento a aproximação precoce do crepúsculo.
São poucos os dias em que permaneço inteira. Deito-me fora muito cedo e antes de cair a noite vou rebuscar as peças para me enformar mais uma vez, colando-me.

Monday, February 12, 2007

Valeu a pena

Claro que valeu a pena ter manifestado a minha posição e ter-me batido por ela.
Embora o país não seja um mas dois (vejam aqui), vá-se lá saber porquê (um dia destes escrevo sobre as explicações histórico-geográficas das diferenças), alguma coisa de positivo saíu deste folclore que foi o “antes”. Veremos agora como será o depois.

Apraz-me deixar apenas o registo desta afirmação que parece andar a par com aquilo que aqui tenho escrito. Ou eu a par com ela, porque seguramente sou menos importante que a senhora que a pronunciou. Mas somos ambas mulheres.

«A decisão de abortar é profundamente pessoal e privada e o Estado não deve impor uma moral»,disse a presidente das Mulheres Socialistas Europeias, Zita Gurmai, aqui.


E agora mudemos de assunto…

Tuesday, February 06, 2007

Claro que SIM...

... porque não sou marionette...

... não suporto que partidos políticos gastem o meu tempo e a minha paiência na defesa de uma posição que vem de dentro da minha consciência de cidadã e de mulher. E isto refere-se aos SINS e aos NÃOS, obviamente, que em campanha todos se valem dos seus argumentos e quando não os têm pedem-nos emprestados a outras organizações ou pseudo-não-sei-quê... que apetece embrulhar em papel de jornal e mandar para o lixo.

Há muito dinheiro envolvido numa coisa que mais se assemelha a um fait-divers, enquanto outras coisas vão sendo feitas e lançadas em letra de lei, sem que ninguém se apoquente muito.

Ah pois é... a próxima década vai ser de muito desemprego, de muita depressão (não, não é económica, que há por aí muita gente servida de sertralina, fluoxetina e outras "inas" nos bolsos), de muitas famílias desentendidas (casa em que não há pão... ), de muitas limitações às nossas liberdades (talvez não se pense muito nisso... logo se vê... e a ver vamos...)
Nem me apetecia voltar a mencionar o assunto aqui neste espaço. Mas há circunstâncias em que não percebo as pessoas...
... bem sei que tenho de aceitar e respeitar, mas ao menos que me apresentassem argumentos significativos. Como este ou este. Vale a pena ler estas "histórias" e reflectir.

Sou mulher e já vivi o suficiente para saber que há argumentos que não convencem ninguém. E antes de ser mulher sou um ser humano pensante e sou também muito ciosa da minha liberdade individual.

EU VOTO SIM ao direito de decidir sem ser punida por isso.

Friday, February 02, 2007

tropeçar nas letras


Tropeço em tapete gasto
Não é arte, não; é teimosia

Travo a queda
Solto a trova
Trago as trevas
Acho a trave

Atravesso a noite e canto
Euforia? Não. Repetição.

Travo o instante
Trago as trovas
Solto a arte
Mato o pranto

Poesia? Não. É fastio.

Troco as letras
Travo o choro
Solto o riso
Mato as trevas

Troco as letras, troco, toco, taco, travo, cravo, cavo... ...

Tuesday, January 30, 2007

entre as paredes pintadas a branco sujo

Van Gogh

Repito-me, repito-me…
Nasço todos os dias no mesmo lugar e giro em círculo. Nasço depois do sono, depois do sonho, depois das horas sonhadas para o repouso de tanta repetição. Nasço antes do desejo, todos os dias no mesmo lugar; e repito o movimento andando à pressa, que de pressa é feito o verso e o reverso deste andar à volta de mim mesma antes do desejo ou com ele a passo lento, a par comigo.
Repito-me passando por entre estas paredes pintadas a branco sujo depois do tempo passar sobre o dia do começo, dia de sonho e depois o sono a esconder a pouquidão do espaço, que de pouco é feito o estar aqui parada.
Repito-me sempre nas palavras; apenas as coloco de outra maneira para que o efeito não pareça repetir-se; mas o que nasce depois do sono e antes do sonho é um lugar escuro. Memória brava, encolhida à pressa e repetida nos degraus que subo e desço.
E se tropeço?